Olha a estupidez do comentário deste Mané diante de uma mulher prestes a ser apedrejada por “adultério” (que muitas vezes não foi senão estupro), na Indonésia.

Por causa desse tipo de relativização moral, psicopatas definem o que é certo em alguns lugares “por respeito à diversidade cultural”.

Neste cenário, o Islamismo militante extremista sempre triunfará sobre uma maioria estupefata — e impotente.

Controlando meu próprio tempo, ou: porque não respondo suas mensagens na internet imediatamente sempre

Muitas pessoas falam comigo na internet todos os dias. Não sou nenhuma netcelebridade, mas meus podcasts e minha própria atuação profissional, bem como amigos virtuais sempre estão pipocando em notificações no iPad, no iPhone e no Mac.

Estariam pipocando, confesso, se eu não tivesse, há muito tempo, abandonado a prática de ser notificado a cada vez que alguém tem alguma idéia que envolve uma conversa síncrona comigo.

Muito se fala em comunicação síncrona e assíncrona na internet. Emails seriam comunicação assíncrona, telefonemas e mensagens diretas (via WhatsApp, SMS, Telegram ou iMessage), seriam comunicação síncrona, ou seja, uma pessoa sabe quando você recebeu uma mensagem, e — no caso recente do WhatsApp, até mesmo quando ela “leu”, ou seja, quando ela acessou a tela onde sua mensagem está escrita.

Isso provoca ansiedade em muita gente, eis porque resolvi escrever este artigo. Em vez de explicar isso para cada um dos meus interlocutores virtuais, mando-lhes este link, daí eles podem entender os meus porquês — ou ficarem ainda mais ofendidos. De todo modo passa a não ser mais um problema meu. :-)

Em princípio, para mim, por zelo à minha produtividade (e ao meu lazer, dá licença?), toda comunicação comigo é assíncrona. Meu iPhone não recebe notificações nem das minhas ligações telefônicas. Exceto minha esposa, meu filho e talvez algum paciente para o qual eu esteja em estado de alerta, todas as ligações são defletidas por padrão, e eu escolho quais delas irei retornar, e quando.

Faço isso, porque tenho como meta controlar o máximo possível o meu tempo, segundo a filosofia de gerenciamento de tarefas GTD, cujo objetivo é desenvolver a certeza de que — a cada momento — você está fazendo o que deveria, segundo critérios que você elaborou.

Se alguém me manda uma mensagem, e espera ansiosamente uma resposta imediata, e sente-se ofendido quando não a obtém, essa pessoa está controlando meu tempo, não eu. É esse não é um direito que eu faculto a muitas pessoas: afinal, é o meu tempo.

Deste modo, não estranhe se uma mensagem sua ficar sem resposta por minutos, horas, dias, ou encarnações. Sinta-se livre para perguntar-me por quê, e também para se ofender. Não é pessoal. É que você não tem o direito de interromper o que quer que eu esteja fazendo, seja qual for o seu motivo, a não ser que eu decida que você pode.

Assim, pode acontecer, por exemplo, de uma mensagem do WhatsApp ficar toda verdinha sem que eu sequer tenha lido a sua mensagem: posso ter acessado a tela para me livrar do “badge”, o número que fica do lado do ícone do App, perturbando o meu juízo.

Se a sua mensagem for importante, para a nossa relação terapêutica, ou pessoal, ou profissional, tenha certeza que ela será respondida, porque as que serão respondidas por escrito, segundo meus critérios, vão para o Omnifocus, um sistema de gerenciamento de tarefas que me auxilia a planejar para o tempo que eu designar para executá-las.

Algumas comunicações, claro, precisam ter como resposta o silêncio. Mas não seja tão rápido para pensar que a sua recai nesta categoria. Só não espere sentado. Queixas sobre porque não respondi imediatamente à sua mensagem são fortemente candidatas à resposta de custo zero: a não resposta.

Isso não significa que eu não responda imediatamente algumas mensagens, às vezes com pequenas justificativas para eu não poder falar no momento. Questionar essas justificativas com “Não acho que seja por isso, por tal ou qual motivo”, ou “você não me engana, eu sei que você leu, o Facebook me informou” são outras sérias candidatas ao esquecimento seletivo.

Vou lhe dizer como eu faço quando quero me comunicar com alguém:

  1. Sou conciso e preciso. Não espero que “preciso falar com você” mereça qualquer resposta. Minha necessidade de falar com você não é justificativa para eu tentar controlar o seu tempo.
  2. Não espero — ainda que eu necessite disso — uma resposta imediata de você. Responda-me se quiser, ou não responda. Você é livre para não responder. Não me sinto ofendido com isso, estou sempre ocupado demais com outra coisa para perder meu tempo me ofendendo.
  3. Caso a intercâmbio possa ser do seu interesse, posso enviar uma segunda mensagem, seguindo os princípios do item 1, concisão e precisão, lhe dizendo por quê. Se ainda assim você não responder, posso ter me enganado avaliando que seria importante para você, responder minha mensagem. Neste caso, assumo total responsabilidade pelo engano, enquanto estou pensando/fazendo algo mais importante, porque nunca faltam estas coisas na minha vida.

Antes que você pense que eu sou blasè ou boçal, lembre-se: a internet é um meio poderoso de comunicação, e está em nossas mãos não deixá-la degenerar-se numa fonte de ansiedade e preocupação.

Para concluir, se você ficou ofendido com esse artigo, você precisa urgentemente encontrar algo mais importante para fazer. Se você achou-o útil, sinta-se livre para mandar este link para outras pessoas, e adquirir mais controle sobre o seu tempo também.

Breaking Lib – Como e por quê me tornei um Libertário

Sou um ativista de sofá. Desde junho do ano passado, quando estouraram as manifestações que até hoje ninguém sabe o que queriam (talvez fossem mesmo só os vinte centavos), senti-me compelido a tentar compreender filosofia e ciência política, bem como economia, para não pagar mico levantando cartaz e ser massa de manobra.

Bem, estou exagerando quanto à possibilidade de eu pagar esse mico. Pouca coisa me faria sair por aí segurando um cartaz e gritando palavras de ordem. Primeiro que morro de medo de multidões. Em minha mente pululam imagens de manadas de animais selvagens, prestes a desembestar e me pisotear irracionalmente. Se a divisão plantada no Brasil florescer numa guerra civil, serei o primeiro a fugir com minha família para as montanhas.

Quando eu era estudante de psicologia na década de noventa, um sujeito foi pego espiando as garotas no banheiro feminino. A segurança do Campus era precária, e o sujeito nem era estudante, era apenas um qualquer um que teve acesso fácil, pois as portas de entrada eram usadas simultaneamente para veículos e pessoas, e não havia nenhum segurança controlando o acesso.

O Reitor mandou colocar um cadeado em um pequeno portão que dava para a avenida da universidade, onde hoje tem uma entrada de estacionamento a la shopping center, com um segurança controlando o acesso. A idéia era dificultar a entrada de circunstantes mal intencionados.

O que se seguiu, no entanto, foi uma mobilização de protesto. A turma dos Centros Acadêmicos, em pleno tempo de “Fora FMI, fora FHC” (que eu achava ruidoso e irritante), logo fez um “movimento do portão”, que clamava contra essa “medida ditatorial” do Reitor, que, segundo eles, teria como objetivo dificultar a comunicação de alunos da psicologia com os de letras, por algum motivo neoliberal maquiavélico.

Era piada pronta. Na esteira do fulgor revolucionário, os Centros Acadêmicos de psicologia, história e letras, além do DCE, e de um bando de secundaristas recrutados para fazer volume, derrubaram o portão, deixando um enorme buraco em seu lugar, símbolo da resistência juvenil contra o fascismo do Reitor. Para os amigos mais próximos, desabafei: “cambada de vândalos”. Publicamente, no entanto, me “infiltrei” no movimento, pegando um violão e pedindo voz no microfone em frente à multidão. Cantei a seguinte versão de “Gente Humilde”, humildemente escrita por mim à época:

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim, minha paciência se esgotar
Porque parece que acontece de repente
Um movimento pro portão escancarar

Mas é tão fácil mudar a universidade
E a cidade, e o planeta, e o universo
Basta ir contra este Reitor perverso
Que fecha portas pra mais ninguém passar

Parece pouco quando falo no portão,
Mas imagine ter que a rua atravessar
Arrodeando vinte metros pelo Campus
Só de pensar, me dá vontade de chorar

E o currículo neolítico, e a greve
Dos professores, atrasando a formação
E a colação cada segundo mais distante
Com o maldito sistema de computação

Nada é tão forte, tão potente, importante
Quanto o desplante de trancar nosso portão….

O Centro Acadêmico de psicologia entendeu a piada, e se desligou do movimento. Os demais seguiram com suas pautas absurdas, chegando a ocupar a reitoria.

Não me engajo em nada que não compreendo, exceto quando sou compelido a isso pela minha intuição, que passei anos tentando diferenciar do meu desejo, da minha avidez, e da minha preguiça. Até hoje só às vezes consigo lográ-lo com êxito.

O resultado do exame que fiz da filosofia política e da economia, exame esse tão caótico e não-linear como é sempre cabeça de poeta, foi eu me ir tornando libertário, como outro poeta que eu amo, Fernando Pessoa, e como todos os grandes verdadeiros mestres e profetas que já li.

Essa filosofia tem apenas duas premissas:

  1. Cuide da sua vida.
  2. Não se meta na vida alheia.

O resto é só consequência. Isso é incompatível com o pensamento de esquerda. Primeiro porque a esquerda, como diz o filósofo Luiz Felipe Pondé, coloca o mal no outro, recusando-se sempre a enxergá-lo em si, pela aparente justeza do ideal a que se subscreve.

Segundo porque ela não pode prescindir de um estado forte, intervencionista, e quanto mais forte o estado, mais ele quer cuidar da sua vida, mais ele interfere na vida alheia. Em resumo: o tamanho da nossa liberdade está em proporção inversa ao tamanho do estado.

Mas não foi sem conflito, externo e interno, que cheguei a essa concepção de mundo. Foi uma espécie de “breaking lib”, onde eu ia questionando cada vez mais o infantil pensamento hegemônico de esquerda que tentou em vão, como vocês leram acima, seqüestrar minha cabeça desde a universidade. Na verdade, desde o berço: minha mãe sempre esteve envolvida com política, chegando a ser candidata a vereadora pelo PT.

Minha esposa foi candidata duas vezes a Deputada Estadual, a primeira pelo PCB, a segunda pelo recém egresso do partidão, partido ao meio depois da queda do muro de Berlim, o PPS do deputado Roberto Freire. As duas são mulheres admiráveis, foram e são modelos de conduta para mim. Ambas votaram na Dilma. Não são mais, no entanto, minhas referências políticas.

Tampouco eu me tornei referência em meu círculo imediato de amigos e na família. Longe disso! Meu libertarianismo é tolerado como uma excentricidade, um pecadilho aceito com certa comiseração, vindo de alguém tão aparentemente gente-fina. Bem, já me acostumei a ser impopular. É desconfortável, mas é melhor do que estar errado.

Família e alguns amigos põem meu posicionamento político na conta de um suposto desvio mental, ou algo do gênero. É mais fácil do que tentar refutar meus questionamentos, nos papos de fim-de-semana, e mantém o amor rolando, então, tudo bem.

Mas por quê um cara como eu, nordestino cabeça-chata cearense, iria apoiar uma ideologia política pró-mercado? Sou uma pessoa sem coração? Fiquei rico? Passei a receber dinheiro da CIA para fazer apologia do capitalismo? Não. Pelo contrário. Fique à vontade para escolher uma destas teorias, se isso lhe aprouver, mas saiba que não estará senão me demonizando,construindo um espantalho para você odiar com sofreguidão. Eu não ligo. Não passei o ano queimando pestana para ser amado ou odiado. Fiz isso para ver as coisas de maneira mais clara. Aqui, tento dizer apenas o que houve, segundo meu ponto de vista.

Individualismo Metodológico

A palavra “individualismo” caiu em desgraça, junto com “capitalismo”, então, concedo a você, leitor, falar aqui de subjetividade, como termo funcionalmente equivalente. Escolhi este recorte da realidade para estudar, desde que saí da adolescência. Já são cerca de vinte e cinco anos lendo, sublinhando e processando textos que esquadrinham o mundo a partir de uma perspectiva individual.

Deste modo, assim como Lula entende o mundo a partir de seu amplo entendimento e entusiasmo com o futebol, eu entendo o mundo a partir da psicologia. Assim como ele produz metáforas com times e campeonatos, eu tendo a produzir as minhas em termos de cognição, emoção, intuição, percepção, comportamento. É só neste sentido que posso dizer que me considero um individualista metodológico.

Fique à vontade para me considerar um ególatra fascista, depois de ler isso. Você só vai estar errado. Mas isso pode até ser irrelevante para quem só enxerga o mal no outro.

Para minha delícia e desgraça, eu o vejo em mim mesmo, sempre à espreita, e somente assim consigo — algumas vezes — corrigi-lo, ou ao menos driblá-lo, “enganando o capeta” como costumo dizer a pacientes e amigos.

O indivíduo humano e sua singularidade são meu campo de estudo, e meu meio de vida. Se você pensar um pouquinho, concluirá que isso não apenas não significa egoísmo, como me predispõe ao oposto.

Sendo eu um indivíduo, e estando na posição de acompanhar o desenvolvimento e o esforço constante de tantos outros para erguerem suas cabeças da manada humana como pessoas únicas, protagonistas de suas histórias, não poderia deixar de sentir uma profunda empatia pela diversidade humana.

Tanta gente diferente de mim que me sinto compelido a amar e aceitar em toda a sua estranheza singular! tanta beleza se pode contemplar quando se tem o privilégio de ouvir pessoas que procuram ajuda num consultório de psicologia clínica!

Pensando em termos da diversidade humana, portanto, como imaginar que um governo, ainda que eleito por uma maioria, possa representar o “bem comum”? Não que eu duvide da existência de um bem comum. O que duvido é que haja pessoas com conhecimento suficiente das perspectivas de todas as pessoas, para conseguir sequer conceber tal coisa.

Deste modo, pessoas que alegam trabalhar para o bem comum, com freqüência estão querendo impor a sua visão, ou a visão do seu grupo, do que seria este bem comum. E esta será necessariamente o bem comum do seu grupo, não da sociedade como um todo.

Coletivismo e estatismo

Pouca gente que usa o termo “fascista” (que se pronuncia “faxista”) como xingamento sabe que seu símbolo é a idéia de que “juntos somos fortes”, transmitida pelo seu símbolo, o “fasci”, ou “feixe” de varas, cada uma das quais quebraria sob pressão, mas que juntas, oferecem resistência.

O fascismo é simplesmente a idéia de um estado máximo representando o “povo”, representado por comitês de participação popular. Algo semelhante ao decreto que a presidente Dilma tentou passar na goela do Congresso Nacional na primeira semana após ganhar as eleições para presidente.

Qual o problema com esses comitês? Bem, eu não integraria nenhum deles. Minha agenda é tão cheia, que tem dias em que chego em casa às dez da noite, esbaforido e feliz de ter escolhido uma profissão que amo, ajudar as pessoas a serem elas mesmas com o mínimo de muletas possível. Quem me representaria? Não já temos representantes eleitos pelo voto popular?

Pois bem. O Fascismo é a expressão máxima do estatismo, uma forma de coletivismo, que é nada mais, nada menos do que o oposto do individualismo a que me refiro neste texto. O Indivíduo, ou “sujeito”, (palavra que detesto porque contém a idéia de sujeição), é que é uma ficção, um produto quase inerte das “relações de produção”.

Neste ponto, direita e esquerda são irmãos siameses. Ambos querem um estado forte. A direita para manter privilégios e monopólios, a esquerda para criar “reparações históricas” e outras violações da liberdade individual e, nome de um suposto igualitarismo. Como todo igualitarismo é uma farsa, pelo fato de sermos tão maravilhosamente plurais e diferentes uns dos outros, o resultado é sempre o mesmo: o totalitarismo, o politicamente correto, a lógica infantil do “comigo ou contra mim”, um estágio primitivo do desenvolvimento moral descrito por Jean Piaget, em sua obra “O desenvolvimento moral da criança”.

Ambos os projetos, de direita e esquerda, guardam consigo as mesmas ambições de usar o monopólio coercitivo do estado para fazer valerem seus valores sobre a totalidade dos indivíduos em uma dada região. Daí a minha convicção de que estados-nação não passam de bem elaborados currais de gente, cuja cerca é tanto física quanto psicológica. O nacionalismo é a cola emocional desse sofisticado sistema escravagista pós-moderno.

A Revolução interior

Agora pegue as vidas de certos revolucionários, ou mesmo inteligentinhos de esquerda, que passam o tempo tentando mudar o mundo e, que, de perto, são pessoas sem escrúpulos, tirânicas, que inclusive usam o discurso “ungido” de esquerda, no dizer de Thomas Sowell, para justificar sua sanha por poder e controle.

Ouvi gente assim proferir pérolas como “solidariedade é um conceito burguês” (esta ouvi em primeira mão dos lábios do “sujeito”).

Tais pessoas imaginam que o estado resolverá todos os problemas da humanidade, e que só há iniquidade no mundo porque existem pessoas que têm mais do que deviam, em detrimento de outras. Essas outras, segundo esta visão, se a riqueza fosse dividida, viveriam o paraíso na terra, o éden perdido após a humanidade morder a maçã da revolução industrial, segundo a máxima marxista “a todos de acordo com a sua necessidade, de todos segundo sua capacidade”.

Essa asserção, proferida entre lágrimas triunfantes por tantos corações acesos pelo fulgor revolucionário, parte do pressuposto de que a riqueza do mundo é uma grandeza fixa, e que, se uns têm menos, é porque outros têm mais.

Ok, se a riqueza total do mundo fosse uma grandeza fixa, as pessoas mais ricas do século XVII não seriam mais pobres que muita gente de classe média hoje. Riqueza cresce. Riqueza é gerada, todos os dias.

Por outro lado, os “capazes” diminuem de número, e as “necessidades” se multiplicam, numa luta de todos para viver às custas de todos, nas palavras sábias de Frèderic Bastiat, liberal francês do século XVII, para definir o estado.

E como a riqueza é gerada? Através da inovação criativa, através do investimento de recursos. Assim, é uma bobagem imaginar que João é rico porque Pedro é pobre. Os dois fatos não têm necessariamente relação causal, exceção feita a quando João rouba de Pedro.

A produção em massa inaugurada na revolução industrial aboliu a escravidão, e salvou da fome milhões de crianças que, em vez de morrerem, cresceram, tornando-se homens e mulheres, e aumentaram em dez vezes a população humana sobre o planeta.

As condições “terríveis” vividas pelos operários do século XIX, denunciadas por Marx e outros socialistas, eram muito piores quando essas mesmas pessoas moravam nas áreas rurais da Inglaterra, passando fome, como ainda vivem algumas famílias nas brenhas do interior do Ceará. É por isso que as pessoas pegam o pau-de-arara, para tentar a sorte nas capitais. Foi por isso que os campesinos ingleses famintos tornaram-se operários, mas primeiras fábricas da revolução industrial, a única revolução da história que não descambou num banho de sangue monumental.

O capitalismo diminuiu a pobreza dos pobres, e aumentou a riqueza dos ricos. E não é um sistema de controle centralizado, com um “capeta” sentado num trono, o “grande capital” como imagina a mitologia anticapitalista. É um sistema orgânico, descentralizado. Seus problemas começam quando o estado põe a mão na obra, com suas prerrogativas coercivas, privilegiando setores “estratégicos” para viabilizar a sua eternização.

Minha primeira especialização foi em Psicodrama. Vi com meus próprios olhos em experimentos micro-sociais como uma ordem espontânea emerge da interação livre, onde não se trocam senão gestos e palavras. Assim, tenho um modelo empírico da “mão invisível” de que falava Adam Smith: um singelo grupo de Psicodrama ou teatro espontâneo. Assisti dramas efêmeros mudarem vidas em um par de horas, surgidas da criação coletiva de indivíduos conscientes de sua singularidade. Não há motivo para que eu não suponha que isso não seja possível em larga escala ,em que se trocam, além de palavras e gestos, bens e serviços.

Mais valia

Aí vêm os marxistas com a mais-valia. Para quem não sabe — e acreditem, tem gente “disquerda” que desconhece este conceito fulcral delineado por Karl Marx em sua obra capital.

O conceito de mais-valia é a pedra angular do volumoso livro fundamental de Marx, “Das Kapital”. Ela Sustenta que há valor intrínseco em todo trabalho, e que para o “jogo de soma zero” positivar para o “burguês”, o trabalho do “proletariado” é pago com valor inferior a este suposto valor intrínseco, gerando assim a apropriação da “mais-valia”.

Perfeito edifício intelectual, que no entanto desmorona, se verificamos que o alicerce é de gesso. Não há valor intrínseco no trabalho. Basta cavar um buraco por trinta dias no seu jardim e tentar vendê-lo, sem intermediação de nenhum capitalista para descobrir que, embora tenha dado um trabalho enorme cavar o buraco, ele é inútil, e portanto, não vale nada. Ninguém vai comprar um buraco porque você é tão trabalhador e passou tanto tempo, gastou tanta energia cavando. Ele tem que ter utilidade para um potencial comprador.

Enquanto Marx escrevia “O Capital”, a teoria do “valor-trabalho” criada por David Ricardo (e, pasme, pelo próprio Adam Smith), usada como pedra angular no livro, foi refutada por autores como Carl Menger, com um argumento muito simples: O valor não só do trabalho, mas de todos os bens é subjetivo, não objetivo. As coisas têm o valor que lhes atribuímos.

Este argumento genial tornou o conceito de mais-valia um natimorto: foi refutado antes de o livro ser publicado.

O significado de “esquerda” e “direita”

Mas e aí, essa minha defesa do capitalismo significa que sou de direita, não é mesmo? Não. Direita e esquerda são conceitos criados nos tempos da Revolução Francesa, onde, do lado esquerdo da Assembléia, sentavam-se anarquistas, liberais e socialistas utópicos. À direita, passaram a sentar-se os defensores da monarquia, do Ancien Règime.

Os liberais, como vimos, são favoráveis às liberdades individuais, tanto civis quanto econômicas. Os Anarquistas querem o fim do estado, sendo ele substituído por comunas ou corporações livres para competir e cooperar entre si. E os socialistas… Bem, os socialistas querem a impossível igualdade. Marx operacionalizou a inveja e o ressentimento dizendo que o homem tem direito a ser igual, o que equivale a dizer que ele tem o direito de ser o que não é, por natureza.

Não é que esquerda e direita perderam o significado em nossos tempos. Na verdade, nunca tiveram qualquer outro significado que não fosse a demonização do outro lado. Assim, um libertário como eu não aceita a pecha de direitista, ainda que defenda o livre intercâmbio de idéias, bens e serviços. Na verdade, é por esse motivo, que não aceita.

As perguntas que devem ser respondidas, ou: tá, mas o que você sugere?

Ao ouvir isso que você leu aqui, muita gente me pergunta: “ok, você é contra a interferência do estado na vida individual, então me diga: o que teríamos no lugar”?

Existem pessoas que, por sua condição, não têm capacidade produtiva. Devem morrer à míngua?

Não. Tenho filhos autistas, e faço parte de uma organização que defende seus direitos, e lhes provê ajuda para terem uma vida tão plena e digna quanto seja possível. Não foi o estado quem criou a Casa da Esperança.

Mas é o estado que nos sustenta. Infelizmente. Prestamos um serviço. Precisamos ser pagos. O ideal é que fôssemos pagos pelos próprios usuários dos nossos serviços. Em vez disso, esses usuários são extorquidos pelo estado, que serve como intermediário, nos paga mal e exige de nós que paguemos impostos escorchantes, que nos estão levando à ruína financeira.

Se não pagássemos impostos, compraríamos mais barato, viveríamos melhor. Poderíamos pagar serviços de saúde diretamente. Organizações mínimas e descentralizadas, de adesão voluntária, garantiriam que não se cometessem fraudes, ou violência. Nós mesmos, os que escolhêssemos nos armar, protegeríamos nosso patrimônio, e nossas vidas, e a dos nossos.

Parece caótico? Funciona em pequenos grupos. Significa a abolição de hierarquias naturais, baseadas no reconhecimento mútuo de excelências e habilidades úteis? Não. Qual o empecilho para o surgimento de uma sociedade assim?

Primeiro que um estado gordo atrai psicopatas e maníacos por poder. Essa gente não larga o osso fácil. Segundo que vivemos a “Era do Ressentimento” como diz o recente livro do Pondé. Sempre vai ter gente invejando o que o outro tem, o que o outro é, o que ele sabe fazer?

Eu não acho. Diferente do Pondé, acredito na humanidade. Nossa vida tem um propósito. Para mim, ser libertário, anarquista e individualista só significa aplicar a regra de ouro, proferida por um cabeludo muito doido há mais de dois mil anos: “não fazer ao outro o que não queres que te façam”. À exclusão de quem quer o pior para si, é claro.

Esses são os que fizeram do mundo essa merda que ele é hoje. Mas tem outro tipo de gente, cada vez mais numerosa, que em vez de correr para o papai estado toda vez que alguém ofende sua sensibilidade patética, paga o mal com o bem, e ama tão intensamente, como dizem Louis Pawells e Jacques Bergier em seu inspirador ensaio “O Despertar dos Mágicos”, que atravessa o mundo com seu amor.

É quando o estado desaparece, o poder desaparece, o dinheiro desaparece, e nos tornamos todos servidores uns dos outros e — Por este artifício — somos todos servidos. Voluntariamente.