Assim!

Se alguém te perguntar
Com que se parece
A perfeita satisfação
De todo o nosso êxtase
Ergue o rosto,
E diz:

— Assim.

Quando alguém mencionar a graciosidade
Do céu noturno, sobe no telhado
E dança , e diz:

— Assim.

Se alguém quiser saber o que é o espírito
Ou o que significa a fragrância de Deus
Curva tua face em sua direção
Mantém o rosto colado

— Assim.

Quando alguém citar a velha imagem poética
Das nuvens que pouco a pouco encobrem o luar
Lentamente afrouxa os nós do teu manto

— Assim.

Se alguém te perguntar como Jesus ergueu os mortos
Não tenta explicar o milagre
Beija-o nos lábios.

— Assim. — Assim.

Quando alguém te perguntar o que significa
“Morrer de amor”, aponta

— Aqui.

Se alguém perguntar tua estatura, franze o cenho
E mede com teus dedos o espaço
Entre as rugas de tua testa.

— Desta altura.

A alma às vezes deixa o corpo, então retorna.
Quando alguém não acreditar nisso,
Caminha de volta à minha casa

— Assim.

Quando os amantes sussurram
Estão contando nossa história.

— Assim.

Eu sou um céu onde espíritos vivem
Mira este azul profundo
Enquanto a brisa conta um segredo

— Assim.

Quando alguém te perguntar
O que há para ser feito
Acende uma vela em suas mãos.

— Assim.

Como o perfume de José chegou a Jacó?

— Huuuuu.

Como Jacó olhou de volta?

— Huuuuu.

Um vento suave limpa os olhos

— Assim.

Quando Shams retornar de Tabriz
Sua face surgirá por detrás de uma porta
Para nos surpreender

— Assim.

Jallaluddin Rumi
Poeta Sufi do séc. XIII
From ‘The Essential Rumi’, Translations
by Coleman Barks with John Moyne
Translated to Portuguese from the English translation
By Alexandre Costa e Silva

“Abu Hassan insistia em dizer:

‘Pensar sobre os assuntos deste mundo não tem nada a ver com o tema do caminho Dervixe.

Pensar sobre o próximo mundo não tem nada a ver com o tema do caminho Dervixe.

Eles relacionam-se entre si como o ontem com o amanhã.

O Hoje — algo similar, mas que tem sua própria individualidade — este é o tema do caminho Dervixe.’”

Idries Shah, “Dervishness”

“The Dermis Probe”

Teu ofício essencial

Cada pessoa no mundo
Seja homem ou mulher
Tem um um mistério no fundo:
procurar saber quem é.

Tem uns que espicham olho
Em cima do que é alheio
Mas eu que não sou caolho
E enxergo meu caminho
Sei que nunca estou sozinho
Acho isso muito feio.

Digo não estou sozinho
Porque junto sempre tem
Só filmando, caladinho
E querendo nosso bem
Deus, Allah, ou Jeová
E outros nomes que Ele tem.

Criou a humanidade
pra fazer essa jornada
Entre um nada e outro nada
Pela estrada de tudo
Ao menos que a gente saiba

Não tem poema que caiba
O tamanho dessa estrada
Não importa sua eloqüência
o Poeta fica mudo

Nem cabe o sentido da vida
Essa via acidentada
E tão cheia de alegrias
Onde toda a gente é lançada
Vinda do mesmo pó.

Mas se tiver paciência
Aquela que teve Jó
E um pouquinho de atenção
Escutar com o coração
E tiver benevolência

Escuta a voz de Deus
Nas tramas do que ele inventa
Ouve o trinado do pássaro
Vê as nuvens passeando
Descobre que existe algo
Que se ele não fizer
Isso vai ficar faltando.

Quando sabe o que fazer
O homem ainda não está pronto
Ele ainda falta ver
De que ponto do seu ser
Deus lhe manda seu recado
Pois Ele não fica calado
E nem nunca descansou.
Ele não fica enfadado
Ele não foi criado
Ele mesmo é quem criou.

Se é cantando, se é tecendo
Se é fazendo poesia
Ou mesmo, se te apetece
Trabalhando, dia a dia
E mesmo na noite escura
No ofício que a mão alcança
O esquecimento não dura
Perdura a sabedoria
Se um tiver pejo e constância.

Isso é coisa muito simples
E, ao mesmo tempo difícil
Pode um homem viver muito
Sem saber do seu ofício
Seu ofício essencial
Aquele serviço preciso
Que ele precisa fazer
E que caso não descubra
Sua vida foi em vão.

Sendo tão cheia de provas
De alegria e sofrimento
Desemboca num momento
Onde tu prestas contas

Mas somente de uma coisa
Darás esclarecimento
Ao Senhor da criação:
Ele vai te perguntar
Sem mentir nem enrolar
Uma só simples questão:
Quem tu és?

E o que fizeste da vida
Vagando em cima dos pés
Pelos teus, na tua lida
Passa bem na tua frente.

Todo o bem que tu fizeste
Tudo o que de graça deste
Foste pedra, foste flor
Foste bicho, foste gente

Dependendo da resposta
Receberás teu presente
Teu quinhão, e teu troféu
E não é um bilhetinho
Pra poder entrar no céu.

É só o discernimento
A plena compreensão
Dos mistérios desta vida
E a doce sensação

De que cada aflição
Gozo, dor e sofrimento
Teve um lugar preciso
Pra todo e qualquer momento

So então tu te dás conta
De que Deus estava dentro
Que tu és a a casa dele
Por isso é que lá no fundo
Perdido no meio do mundo
Trancado dentro da pele

Tu sabias certas coisas…
Tomavas caminho certo
Tomavas caminho errado
Mas sempre com o pé na estrada.
Vinda do que foste, nada
E conduzida a quem és

E a única condição
Pra tomar este caminho
Que leva a teu eu mais profundo
É usar teus próprios pés

Coragem de ser quem és
E de não culpar o mundo
Pelo teu próprio revés
Pelo teu próprio fracasso

Vai te abater o cansaço
Vai te abater a morte.
Mas se tu tiveres sorte
E Deus te quiser algum bem

Tu vais tirar dessa vida
Somente o que ela tem
E os caminhos que iam
A ti agora vêm
Serás um farol, guiando
Navios na tempestade

Espalhando tua luz
Para quem puder com a dor
De ver tudo com clareza
Por isso dizia o profeta
Que nunca se engana, ou se esquece,
E dizia com certeza:
“Quem conhece a si mesmo, a seu Deus sempre conhece”.

Alexandre Costa e Silva
17/08/2014 – 07:18

Eduardo Campos, a morte, o cérebro, Deus, e as teorias da conspiração.

Um acidente aéreo como o que matou no último dia 13 de agosto o carismático candidato à presidência da República Eduardo Campos, do PSB, sempre deixa histórias que se contam em voz baixa nos velórios. Gente que ia embarcar e por algum motivo não o fez; atrasou-se, teve problemas para embarcar, ou mesmo “não deveria estar lá”, mas estava, por algum motivo aparentemente banal.

Isso acontece porque a morte, a certeza universal, é também um dado absurdo, do ponto de vista do potencial morredor, no caso, eu e você. E o cérebro não evoluiu para lidar com o absurdo.

Pense bem: só o fato de ele ser um cérebro indica um desfecho evolutivo positivo. O cérebro se vê do ponto de vista dos vencedores dos “jogos vorazes” da evolução das espécies. Para ele as histórias têm que ter finais felizes.

Deste modo, céticos ateus explicam a predominância da crença em Deus sobre o ateísmo materialista, uma explicação mais simples — embora menos elegante — do universo: a de que estamos aqui por acaso, a existência de tudo é um acidente destinado a desembocar no nada.

Eu que sou cético sem ser ateu, penso que há um pouco desse “triunfalismo” cerebral na estrutura de todas as histórias que contamos. Realmente, a crença em uma ou várias divindades em todas as suas ricas variações, pode ser explicada de modo coerente pela teoria da evolução, sem lacunas. Para mim, talvez até seja esse o problema. Histórias sem lacunas não produzem outras histórias: são estanques, infecundas.

A teoria da evolução explica bem a crença em Deus, mas não explica Deus. Até o faz, mas como na famosa história sufi, descreve o dedo apontando para a lua, e não a lua mesma. Deus faz sua entrada triunfal sobre as nossas certezas precisamente no imponderável, no imprevisível — essa súbita circunstância que nos põe a contar histórias como uma nascente a lançar águas num rio caudaloso.

Quem imaginaria um cenário político como o que se configurará nos próximos dias, sem a figura carismática do candidato do PSB? Ainda que eu não fosse votar nele, sua morte me deixou perplexo. E como dizia Rumi, o poeta e mestre sufi do século XIII, “o homem de Deus está aturdido e perplexo”.

Ela inclusive veio em um mês onde eu já havia perdido duas pessoas significativas, então pensei: a bruxa está solta. Azrael, o anjo da morte, na tradição islâmica, veio à terra com uma lista longa de nomes, desta vez, com sua estrita obediência a Deus, para colher vidas de volta e devolver à terra o que tomou — contra a vontade desta ultima, diz uma outra história sufi — para fazer o homem.

Da mesma fonte de que brotam essas histórias maravilhosas, que nos aliviam o peito e nos inspiram a continuar caminhando na direção da morte, a perplexidade, brotam também teorias da conspiração. Elas são os mitos dos ateus. E — convenhamos, são bem menos elegantes.

Enquanto uma lei sancionada pouco tempo antes do acidente, decretando sigilo a respeito do conteúdo das caixas pretas de aviões em acidentes aéreos, a afirmação estúpida da presidente Dilma de que “em eleição se faz o diabo” a um acessor do próprio Campos, e a queda do jato em que viajava, são articuladas em um enredo repleto de conflito e sordidez, fico apenas com a perplexidade. Fico com ela, que é mais elegante e fecunda. “Aturdido e perplexo”.

Se houve ou não sabotagem, cedo ou tarde saberemos. Ou talvez nunca saibamos com certeza. A única coisa de que tenho certeza é de que não existe analista político que tenha sido capaz de prever este trágico resultado e seus desdobramentos políticos.

Isso me lembra uma frase, que se interpretada literalmente nos imobiliza, e que se lida com um coração ardente, nos inspira e consola: “quem sabe que até os fios de cabelos de sua cabeça estão contados, não mais planeja”.

“Não mais planeja” não significa literalmente ser o louco do tarô, com um cachorro mordendo-lhe a bunda e andando a êsmo rumo ao abismo da morte. Significa apenas perplexidade, aceitação da fatalidade e — puxando a brasa para minha sardinha islâmica — submissão a Deus, que, no Gênesis, empregou o singular para criar todas as coisas, e, por último ao criar o homem, usou o plural: “façamos o homem”.

Já ouvi diversos porquês desta mudança de singular para plural no sujeito do verbo: uma afirma que Ele empregou o plural majéstico, outra que se referiu a si e aos anjos. Inúmeras interpretações foram dadas para essa sutil diferença no enunciado, entre o “faça-se a luz” e o “façamos o homem”. A mais fecunda, na minha opinião é a dos judeus hassidicos, que afirmam que Ele usou o plural porque estava, ao mesmo tempo, criando o ser humano e convidando-o a criar sempre a si mesmo, junto consigo.

Nem sempre Sua contribuição na criação contínua do homem é atirar flores em nosso caminho. Às vezes, atira aviões sobre as nossas casas. Que Ele nos proteja a todos, e console a família de Eduardo Campos nesta hora tão difícil.

Quanto a mim, e às teorias da conspiração, bem, algumas delas podem até se revelar factíveis no fim das contas, mas eu prefiro o mito clássico: com ou sem sabotagem, Deus, que tudo sabe e vê, paradoxalmente onipotente e onipresente, decidiu que, no dia 13 de agosto de 2014, exatamente nove anos após a morte de seu avô e mentor político Miguel Arraes, Eduardo Campos encerraria seus dias sobre a terra. Vivamos com isso, ainda que por não ter jeito.

Mas eu, sendo o Aécio Neves, ou a Marina Silva, mandava inspecionar o jato sempre que tivesse de voar. Vai que alguém resolve “fazer o diabo”… Não necessariamente precisa ser a autora da frase infeliz. Até acho que, se tal fosse o caso, ela seria muito mais estúpida do que aparenta.

Aqui a perplexidade dá lugar a um ditado oriundo das tradições do profeta Muhammad: “confia em Deus, mas amarra teu camelo”.

Eu e Deus — a minha fé

A influência de lugares e objetos sagrados está em direta proporção com a reverência com que uma pessoa se relaciona com eles. Um livro, um tasbi, uma tekkia, e até mesmo a sagrada Caaba e o Nobre Alcorão — tudo isso só influencia e enriquece a quem se põe num correto relacionamento com estas coisas.

A busca pelo sagrado está no âmago da humanidade. Ateus vão demonstrar, secos e diretos, com sua cortante navalha de Occam, que somos nós quem criamos o divino, para lidar com o fato básico e incontestável da finitude.

O quão desprovido de maravilha é um cosmos aleatoriamente nascido de um caos inexplicável, que avança em direção à implacável e sempre vencedora entropia que nos devora com sua boca escancarada, o tempo! Seu apetite é insaciável! Segundo os ateus, a vida seria insuportável sem a capacidade de imaginar deuses, sem a deificação de fatos naturais, sem a antropormofização do eterno como uma mentira heróica, uma tentativa inútil e fadada ao fracasso de enganar a eternidade.

Quanto a está última, nunca ninguém provou sua existência. Até onde sabemos, tudo começou numa explosão insólita, e numa contínua expansão que representa a combustão do nada que explodiu (ou do tudo super-condensado, que não passa da mesma coisa). Até onde sabemos, a própria eternidade é uma mentira bem contada, repetida ad nauseum até que fosse dada como real, ainda que não passe de uma abstração desprovida de alicerce empírico.

Uma pessoa que concebe a realidade assim, não possui desenvolvidas as faculdades que lhe permitiriam conectar-se a um objeto sagrado, impregnado de memória humana, saturado de ações heróicas, irradiando a generosidade, a misericórdia, a paciência e a humildade do homem ou dos homens que a usaram para curvarem-se ao criador dos mundos.

Sim, porque através dos sentidos ordinários se captam os fatos, o empíreo, o palpável, aquilo que tem a concretude de uma pedra em queda livre sobre a nossa cabeça. Mas além destes sentidos, há outros. Há uma inquietude, aquela que move os santos e os mártires, e os heróis. Aquela que vai além de si mesma e da inexorável evolução da vida, e seu legado de auto-preservação e auto-interesse.

Essa inquietude, essa sensação de que a verdade está sempre além dos fatos, que não se confunde com eles, que não pode ser transmitida em palavras — como dizem os sufis, “quem prova, sabe”. Ela é a abertura que algumas pessoas desenvolvem em direção ao sagrado. É essa falta, essa fome interior, essa sensação de que o mundo sensível é que é um sonho — platônica, plotínica, se quiser, sempre animando os grandes feitos humanos. Ela vale a pena.

Ela permite o uso de instrumentos, através dos quais uma pessoa se relaciona com algo que a humanidade chama de Deus, no esforço libertário de romper os grilhões da deificação da natureza, o paganismo, ou o ateísmo. Estes instrumentos nos ligam a uma longa cadeia de memórias. Eles contam a história imemorial da humanidade, através dos mitos.

É uma bem contada mentira que um mito seja uma mentira. Um mito é conhecimento condensado, “experiência desidratada”, no dizer de Idries Shah. Uma história mítica de ensinamento, ou um texto religioso é um documento tão técnico quanto um paper acadêmico, com a vantagem de ser alegórico, polissêmico, transistórico, e principalmente fecundo.

Um ano a ciência condena o chocolate, no outro, ele é bom para a depressão. Carne vermelha já foi o vilão como resultado de diversas pesquisas, e outras apontam o seu valor inestimável em uma dieta saudável. Não estou condenando isso. Esta é a ciência sendo ciência. Eterna negadora de si mesma. A ciência é o melhor uso que se pode fazer da dúvida.

O pior é a esterilidade do ateísmo. Ele não atinge a Deus, nem aos verdadeiros homens de fé. Ele não é incompatível com a moralidade, como o querem religiosos literalistas (termo que considero mais exato que fundamentalismo, como explico adiante). Por este motivo, tenho amigos ateus, converso com eles, e silencio, quando fazem troça de minha profunda conexão com o sufismo e a tradição islâmica. Parafraseando Jesus, eles não sabem o que fazem.

Não tenho orgulho de minha relação com Deus, tenho uma sorte tremenda de haver encontrado em meu caminho pessoas que acenderam em meu coração a chama eterna da busca por esse amor infinito, e me ensinaram que não se explica o inexplicável: simplesmente se guarda no coração os tesouros da memória, a experiência do sagrado, e sua influência em todas as escolhas da minha vida.

Por este motivo me considero um fundamentalista. Adiro ao fundamento básico de todas as religiões, em todos os tempos, e este fundamento é o amor. O amor de Deus pela humanidade, correspondido ou não. O amor de Deus não requer sequer uma conversão religiosa. Ele está lá quando você vence, e também quando você fracassa miseravelmente. Ele sustenta o próprio tecido do Universo.

Por este motivo, os fatos são usáveis, mas a verdade, no sentido absoluto, é inapreensível. Ela jaz no âmago da jornada humana sobre a terra, e continuará a produzir “big bangs” de ébria criatividade dentre os amantes que encontram Deus na imanência e o percebem nas sutilezas da transcendência.