Um remédio homeopático, ou: uma resposta libertária ao problema da corrupção, ou ainda: concedendo ao PT o benefício da dúvida


A corrupção é um problema endêmico no Brasil, e o pior deles, com isso ainda não encontrei quem não concordasse. Uma aula sobre este tema é a excelente trilogia “O Poderoso Chefão” de Francis Ford Copolla. Na verdade, a trilogia é uma aula de política, por isso ainda voltarei ao tema muitas vezes, pautado pelos três filmes.

Recentemente, demos um grande passo no Brasil. Não posso deixar de concordar que a prisão de empresários que ninguém irá chamar de heróis nacionais é um avanço inegável, um recado para o povo brasileiro, para a classe empresarial e para a classe política, de que somos uma democracia republicana, com instituições independentes. Reluto em atribuir essa conquista aos governos do PT, mas quando um professor do MIT filiado ao PSDB diz isso, minha tendência é conceder aos petistas ao menos o benefício da dúvida.

Mesmo com a cúpula do partido na cadeia (prisão domiciliar, vá lá), e os dois últimos presidentes citados nos depoimentos da delação premiada (e o ministério público negando acesso oficial ao depoimento à presidente da república — o que pode significar que ela esteja mais implicada do que parece), parece inegável que nunca se prendeu tanto corrupto no Brasil, tanto ligado à classe política quanto à empresarial.

Dilma se exprime mal, mas as últimas indicações de ministérios parecem, para nosso alívio, que ela escolheu a incongruência com o discurso de campanha sobre o desatino de não implementar o que ela acusou Aécio de fazer, caso fosse eleito. Pensando bem, é até coerente: ela mesma afirmou que em eleição “se faz o diabo”. Em períodos não eleitorais já havia até mesmo elogiado o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por haver salvo o país da bancarrota com o Plano Real, parabenizando-o pelo seu aniversário. Não é honesto, mas é coerente.

A operação lava-jato está prendendo preventivamente vários executivos das empresas: Odebrecht, Mendes Junior, Engevix, OAS, Camargo Corrêa Construções, Lesa Óleo e Gás, UTC e Construtora Queiroz Galvão. Isso não tem precedentes no Brasil. Dinheiro sempre foi garantia de impunidade.

O Brasil é um exemplo clássico de capitalismo de compadrio, ou capitalismo de estado. Em maior ou menor escala, esse modelo vige no mundo inteiro, porque no mundo inteiro há estados-nação, que como você sabe, reputo na condição de currais humanos.

No Brasil, por razões históricas, como em quase toda a América Latina, o capitalismo como sinônimo de livre intercâmbio de idéias, bens e serviços nunca prosperou. Em vez disso, prosperaram monopólios e oligopólios, com as bênçãos do estado. “Mas péra aí, Alexandre! Você não era de direita?” — te peguei! Não, não sou.

Mas o estado, enquanto uma corporação que detém o monopólio da criação, aprovação e aplicação da lei, é o ninho (de cobras) perfeito para grandes capitalistas. Para estes, quanto maior o estado, melhor. Não importa se a justificativa para a sua existência é um diáfano “pacto social” ou o “direito divino de governar”, que é a desculpa velha. A aristocracia só decaiu em relação à burguesia porque essa começou a acumular dinheiro, e reinvesti-lo no controle da máquina estatal.

“Ah, então você é a favor do fim do financiamento privado de campanha!!” — errado de novo. Não sou.

A resposta estatista, de direita ou de esquerda, para o corporatismo(como o define a esquerda) e o capitalismo de compadrio (como o definem setores da direita) é mais regulação sobre as empresas. A resposta libertária é menos regulação ainda.

Parece um contra-senso, mas é um remédio homeopático: se você tem um estado forte, Big Government, o Big Business sempre encontrará um modo, legal ou ilegal de controlá-lo. As leis não mudam a natureza humana.

Se você deixa o mercado mais desregulado e reduz o tamanho do estado, você muda o esquema de incentivos. As pessoas vão votar com suas carteiras, e nos políticos, só se quiserem. Sim, claro que sou contra o voto obrigatório, tanto quanto sou contra o serviço militar obrigatório. Sou libertário, pô! As duas coisas são as pontas do iceberg do sistema escravagista pós-moderno.

Quanto maior o poder do estado, mais maligno e corrupto se torna o esquema, não importa se é a esquerda ou a direita que está no poder.

Isso é mais claro nos EUA, porque lá a esquerda (que seqüestrou o termo liberal) não tem o monopólio da virtude fortalecido por anos de perseguição do regime militar, que ainda pauta opiniões políticas, de tão deletério que foi para a nossa saúde institucional.

Tudo o que uma empresa precisa para se dar bem é o que um pequeno empreendedor ou cooperativa não pode ter: dinheiro para bancar a burocracia legal e os “atalhos” ilegais (que todo mundo sabe que existem) para manterem-se em operação.

Assim, no capitalismo de compadrio (crony capitalism) que temos em operação no Brasil (nosso mercado NUNCA foi livre, diga-se de passagem) os grandes não precisam dos clientes, só precisam apadrinhar um político (que se sente um padrinho, mas não passa de ‘nickels and dines’ no bolso dos mafiosos, como diz Sollozzo a Don Corleone em “O Poderoso Chefão”).

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p>Fato é que com ou sem PT, concordo com Ricardo Semler numa coisa: O Brasil nunca mais será o mesmo. Vejam como votar era menos relevante do que parecia. Aécio não teria feito muito diferente, em relação aos ministérios. Viva a polícia federal. Meu espírito está mais leve.