Breaking Lib – Como e por quê me tornei um Libertário

Sou um ativista de sofá. Desde junho do ano passado, quando estouraram as manifestações que até hoje ninguém sabe o que queriam (talvez fossem mesmo só os vinte centavos), senti-me compelido a tentar compreender filosofia e ciência política, bem como economia, para não pagar mico levantando cartaz e ser massa de manobra.

Bem, estou exagerando quanto à possibilidade de eu pagar esse mico. Pouca coisa me faria sair por aí segurando um cartaz e gritando palavras de ordem. Primeiro que morro de medo de multidões. Em minha mente pululam imagens de manadas de animais selvagens, prestes a desembestar e me pisotear irracionalmente. Se a divisão plantada no Brasil florescer numa guerra civil, serei o primeiro a fugir com minha família para as montanhas.

Quando eu era estudante de psicologia na década de noventa, um sujeito foi pego espiando as garotas no banheiro feminino. A segurança do Campus era precária, e o sujeito nem era estudante, era apenas um qualquer um que teve acesso fácil, pois as portas de entrada eram usadas simultaneamente para veículos e pessoas, e não havia nenhum segurança controlando o acesso.

O Reitor mandou colocar um cadeado em um pequeno portão que dava para a avenida da universidade, onde hoje tem uma entrada de estacionamento a la shopping center, com um segurança controlando o acesso. A idéia era dificultar a entrada de circunstantes mal intencionados.

O que se seguiu, no entanto, foi uma mobilização de protesto. A turma dos Centros Acadêmicos, em pleno tempo de “Fora FMI, fora FHC” (que eu achava ruidoso e irritante), logo fez um “movimento do portão”, que clamava contra essa “medida ditatorial” do Reitor, que, segundo eles, teria como objetivo dificultar a comunicação de alunos da psicologia com os de letras, por algum motivo neoliberal maquiavélico.

Era piada pronta. Na esteira do fulgor revolucionário, os Centros Acadêmicos de psicologia, história e letras, além do DCE, e de um bando de secundaristas recrutados para fazer volume, derrubaram o portão, deixando um enorme buraco em seu lugar, símbolo da resistência juvenil contra o fascismo do Reitor. Para os amigos mais próximos, desabafei: “cambada de vândalos”. Publicamente, no entanto, me “infiltrei” no movimento, pegando um violão e pedindo voz no microfone em frente à multidão. Cantei a seguinte versão de “Gente Humilde”, humildemente escrita por mim à época:

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim, minha paciência se esgotar
Porque parece que acontece de repente
Um movimento pro portão escancarar

Mas é tão fácil mudar a universidade
E a cidade, e o planeta, e o universo
Basta ir contra este Reitor perverso
Que fecha portas pra mais ninguém passar

Parece pouco quando falo no portão,
Mas imagine ter que a rua atravessar
Arrodeando vinte metros pelo Campus
Só de pensar, me dá vontade de chorar

E o currículo neolítico, e a greve
Dos professores, atrasando a formação
E a colação cada segundo mais distante
Com o maldito sistema de computação

Nada é tão forte, tão potente, importante
Quanto o desplante de trancar nosso portão….

O Centro Acadêmico de psicologia entendeu a piada, e se desligou do movimento. Os demais seguiram com suas pautas absurdas, chegando a ocupar a reitoria.

Não me engajo em nada que não compreendo, exceto quando sou compelido a isso pela minha intuição, que passei anos tentando diferenciar do meu desejo, da minha avidez, e da minha preguiça. Até hoje só às vezes consigo lográ-lo com êxito.

O resultado do exame que fiz da filosofia política e da economia, exame esse tão caótico e não-linear como é sempre cabeça de poeta, foi eu me ir tornando libertário, como outro poeta que eu amo, Fernando Pessoa, e como todos os grandes verdadeiros mestres e profetas que já li.

Essa filosofia tem apenas duas premissas:

  1. Cuide da sua vida.
  2. Não se meta na vida alheia.

O resto é só consequência. Isso é incompatível com o pensamento de esquerda. Primeiro porque a esquerda, como diz o filósofo Luiz Felipe Pondé, coloca o mal no outro, recusando-se sempre a enxergá-lo em si, pela aparente justeza do ideal a que se subscreve.

Segundo porque ela não pode prescindir de um estado forte, intervencionista, e quanto mais forte o estado, mais ele quer cuidar da sua vida, mais ele interfere na vida alheia. Em resumo: o tamanho da nossa liberdade está em proporção inversa ao tamanho do estado.

Mas não foi sem conflito, externo e interno, que cheguei a essa concepção de mundo. Foi uma espécie de “breaking lib”, onde eu ia questionando cada vez mais o infantil pensamento hegemônico de esquerda que tentou em vão, como vocês leram acima, seqüestrar minha cabeça desde a universidade. Na verdade, desde o berço: minha mãe sempre esteve envolvida com política, chegando a ser candidata a vereadora pelo PT.

Minha esposa foi candidata duas vezes a Deputada Estadual, a primeira pelo PCB, a segunda pelo recém egresso do partidão, partido ao meio depois da queda do muro de Berlim, o PPS do deputado Roberto Freire. As duas são mulheres admiráveis, foram e são modelos de conduta para mim. Ambas votaram na Dilma. Não são mais, no entanto, minhas referências políticas.

Tampouco eu me tornei referência em meu círculo imediato de amigos e na família. Longe disso! Meu libertarianismo é tolerado como uma excentricidade, um pecadilho aceito com certa comiseração, vindo de alguém tão aparentemente gente-fina. Bem, já me acostumei a ser impopular. É desconfortável, mas é melhor do que estar errado.

Família e alguns amigos põem meu posicionamento político na conta de um suposto desvio mental, ou algo do gênero. É mais fácil do que tentar refutar meus questionamentos, nos papos de fim-de-semana, e mantém o amor rolando, então, tudo bem.

Mas por quê um cara como eu, nordestino cabeça-chata cearense, iria apoiar uma ideologia política pró-mercado? Sou uma pessoa sem coração? Fiquei rico? Passei a receber dinheiro da CIA para fazer apologia do capitalismo? Não. Pelo contrário. Fique à vontade para escolher uma destas teorias, se isso lhe aprouver, mas saiba que não estará senão me demonizando,construindo um espantalho para você odiar com sofreguidão. Eu não ligo. Não passei o ano queimando pestana para ser amado ou odiado. Fiz isso para ver as coisas de maneira mais clara. Aqui, tento dizer apenas o que houve, segundo meu ponto de vista.

Individualismo Metodológico

A palavra “individualismo” caiu em desgraça, junto com “capitalismo”, então, concedo a você, leitor, falar aqui de subjetividade, como termo funcionalmente equivalente. Escolhi este recorte da realidade para estudar, desde que saí da adolescência. Já são cerca de vinte e cinco anos lendo, sublinhando e processando textos que esquadrinham o mundo a partir de uma perspectiva individual.

Deste modo, assim como Lula entende o mundo a partir de seu amplo entendimento e entusiasmo com o futebol, eu entendo o mundo a partir da psicologia. Assim como ele produz metáforas com times e campeonatos, eu tendo a produzir as minhas em termos de cognição, emoção, intuição, percepção, comportamento. É só neste sentido que posso dizer que me considero um individualista metodológico.

Fique à vontade para me considerar um ególatra fascista, depois de ler isso. Você só vai estar errado. Mas isso pode até ser irrelevante para quem só enxerga o mal no outro.

Para minha delícia e desgraça, eu o vejo em mim mesmo, sempre à espreita, e somente assim consigo — algumas vezes — corrigi-lo, ou ao menos driblá-lo, “enganando o capeta” como costumo dizer a pacientes e amigos.

O indivíduo humano e sua singularidade são meu campo de estudo, e meu meio de vida. Se você pensar um pouquinho, concluirá que isso não apenas não significa egoísmo, como me predispõe ao oposto.

Sendo eu um indivíduo, e estando na posição de acompanhar o desenvolvimento e o esforço constante de tantos outros para erguerem suas cabeças da manada humana como pessoas únicas, protagonistas de suas histórias, não poderia deixar de sentir uma profunda empatia pela diversidade humana.

Tanta gente diferente de mim que me sinto compelido a amar e aceitar em toda a sua estranheza singular! tanta beleza se pode contemplar quando se tem o privilégio de ouvir pessoas que procuram ajuda num consultório de psicologia clínica!

Pensando em termos da diversidade humana, portanto, como imaginar que um governo, ainda que eleito por uma maioria, possa representar o “bem comum”? Não que eu duvide da existência de um bem comum. O que duvido é que haja pessoas com conhecimento suficiente das perspectivas de todas as pessoas, para conseguir sequer conceber tal coisa.

Deste modo, pessoas que alegam trabalhar para o bem comum, com freqüência estão querendo impor a sua visão, ou a visão do seu grupo, do que seria este bem comum. E esta será necessariamente o bem comum do seu grupo, não da sociedade como um todo.

Coletivismo e estatismo

Pouca gente que usa o termo “fascista” (que se pronuncia “faxista”) como xingamento sabe que seu símbolo é a idéia de que “juntos somos fortes”, transmitida pelo seu símbolo, o “fasci”, ou “feixe” de varas, cada uma das quais quebraria sob pressão, mas que juntas, oferecem resistência.

O fascismo é simplesmente a idéia de um estado máximo representando o “povo”, representado por comitês de participação popular. Algo semelhante ao decreto que a presidente Dilma tentou passar na goela do Congresso Nacional na primeira semana após ganhar as eleições para presidente.

Qual o problema com esses comitês? Bem, eu não integraria nenhum deles. Minha agenda é tão cheia, que tem dias em que chego em casa às dez da noite, esbaforido e feliz de ter escolhido uma profissão que amo, ajudar as pessoas a serem elas mesmas com o mínimo de muletas possível. Quem me representaria? Não já temos representantes eleitos pelo voto popular?

Pois bem. O Fascismo é a expressão máxima do estatismo, uma forma de coletivismo, que é nada mais, nada menos do que o oposto do individualismo a que me refiro neste texto. O Indivíduo, ou “sujeito”, (palavra que detesto porque contém a idéia de sujeição), é que é uma ficção, um produto quase inerte das “relações de produção”.

Neste ponto, direita e esquerda são irmãos siameses. Ambos querem um estado forte. A direita para manter privilégios e monopólios, a esquerda para criar “reparações históricas” e outras violações da liberdade individual e, nome de um suposto igualitarismo. Como todo igualitarismo é uma farsa, pelo fato de sermos tão maravilhosamente plurais e diferentes uns dos outros, o resultado é sempre o mesmo: o totalitarismo, o politicamente correto, a lógica infantil do “comigo ou contra mim”, um estágio primitivo do desenvolvimento moral descrito por Jean Piaget, em sua obra “O desenvolvimento moral da criança”.

Ambos os projetos, de direita e esquerda, guardam consigo as mesmas ambições de usar o monopólio coercitivo do estado para fazer valerem seus valores sobre a totalidade dos indivíduos em uma dada região. Daí a minha convicção de que estados-nação não passam de bem elaborados currais de gente, cuja cerca é tanto física quanto psicológica. O nacionalismo é a cola emocional desse sofisticado sistema escravagista pós-moderno.

A Revolução interior

Agora pegue as vidas de certos revolucionários, ou mesmo inteligentinhos de esquerda, que passam o tempo tentando mudar o mundo e, que, de perto, são pessoas sem escrúpulos, tirânicas, que inclusive usam o discurso “ungido” de esquerda, no dizer de Thomas Sowell, para justificar sua sanha por poder e controle.

Ouvi gente assim proferir pérolas como “solidariedade é um conceito burguês” (esta ouvi em primeira mão dos lábios do “sujeito”).

Tais pessoas imaginam que o estado resolverá todos os problemas da humanidade, e que só há iniquidade no mundo porque existem pessoas que têm mais do que deviam, em detrimento de outras. Essas outras, segundo esta visão, se a riqueza fosse dividida, viveriam o paraíso na terra, o éden perdido após a humanidade morder a maçã da revolução industrial, segundo a máxima marxista “a todos de acordo com a sua necessidade, de todos segundo sua capacidade”.

Essa asserção, proferida entre lágrimas triunfantes por tantos corações acesos pelo fulgor revolucionário, parte do pressuposto de que a riqueza do mundo é uma grandeza fixa, e que, se uns têm menos, é porque outros têm mais.

Ok, se a riqueza total do mundo fosse uma grandeza fixa, as pessoas mais ricas do século XVII não seriam mais pobres que muita gente de classe média hoje. Riqueza cresce. Riqueza é gerada, todos os dias.

Por outro lado, os “capazes” diminuem de número, e as “necessidades” se multiplicam, numa luta de todos para viver às custas de todos, nas palavras sábias de Frèderic Bastiat, liberal francês do século XVII, para definir o estado.

E como a riqueza é gerada? Através da inovação criativa, através do investimento de recursos. Assim, é uma bobagem imaginar que João é rico porque Pedro é pobre. Os dois fatos não têm necessariamente relação causal, exceção feita a quando João rouba de Pedro.

A produção em massa inaugurada na revolução industrial aboliu a escravidão, e salvou da fome milhões de crianças que, em vez de morrerem, cresceram, tornando-se homens e mulheres, e aumentaram em dez vezes a população humana sobre o planeta.

As condições “terríveis” vividas pelos operários do século XIX, denunciadas por Marx e outros socialistas, eram muito piores quando essas mesmas pessoas moravam nas áreas rurais da Inglaterra, passando fome, como ainda vivem algumas famílias nas brenhas do interior do Ceará. É por isso que as pessoas pegam o pau-de-arara, para tentar a sorte nas capitais. Foi por isso que os campesinos ingleses famintos tornaram-se operários, mas primeiras fábricas da revolução industrial, a única revolução da história que não descambou num banho de sangue monumental.

O capitalismo diminuiu a pobreza dos pobres, e aumentou a riqueza dos ricos. E não é um sistema de controle centralizado, com um “capeta” sentado num trono, o “grande capital” como imagina a mitologia anticapitalista. É um sistema orgânico, descentralizado. Seus problemas começam quando o estado põe a mão na obra, com suas prerrogativas coercivas, privilegiando setores “estratégicos” para viabilizar a sua eternização.

Minha primeira especialização foi em Psicodrama. Vi com meus próprios olhos em experimentos micro-sociais como uma ordem espontânea emerge da interação livre, onde não se trocam senão gestos e palavras. Assim, tenho um modelo empírico da “mão invisível” de que falava Adam Smith: um singelo grupo de Psicodrama ou teatro espontâneo. Assisti dramas efêmeros mudarem vidas em um par de horas, surgidas da criação coletiva de indivíduos conscientes de sua singularidade. Não há motivo para que eu não suponha que isso não seja possível em larga escala ,em que se trocam, além de palavras e gestos, bens e serviços.

Mais valia

Aí vêm os marxistas com a mais-valia. Para quem não sabe — e acreditem, tem gente “disquerda” que desconhece este conceito fulcral delineado por Karl Marx em sua obra capital.

O conceito de mais-valia é a pedra angular do volumoso livro fundamental de Marx, “Das Kapital”. Ela Sustenta que há valor intrínseco em todo trabalho, e que para o “jogo de soma zero” positivar para o “burguês”, o trabalho do “proletariado” é pago com valor inferior a este suposto valor intrínseco, gerando assim a apropriação da “mais-valia”.

Perfeito edifício intelectual, que no entanto desmorona, se verificamos que o alicerce é de gesso. Não há valor intrínseco no trabalho. Basta cavar um buraco por trinta dias no seu jardim e tentar vendê-lo, sem intermediação de nenhum capitalista para descobrir que, embora tenha dado um trabalho enorme cavar o buraco, ele é inútil, e portanto, não vale nada. Ninguém vai comprar um buraco porque você é tão trabalhador e passou tanto tempo, gastou tanta energia cavando. Ele tem que ter utilidade para um potencial comprador.

Enquanto Marx escrevia “O Capital”, a teoria do “valor-trabalho” criada por David Ricardo (e, pasme, pelo próprio Adam Smith), usada como pedra angular no livro, foi refutada por autores como Carl Menger, com um argumento muito simples: O valor não só do trabalho, mas de todos os bens é subjetivo, não objetivo. As coisas têm o valor que lhes atribuímos.

Este argumento genial tornou o conceito de mais-valia um natimorto: foi refutado antes de o livro ser publicado.

O significado de “esquerda” e “direita”

Mas e aí, essa minha defesa do capitalismo significa que sou de direita, não é mesmo? Não. Direita e esquerda são conceitos criados nos tempos da Revolução Francesa, onde, do lado esquerdo da Assembléia, sentavam-se anarquistas, liberais e socialistas utópicos. À direita, passaram a sentar-se os defensores da monarquia, do Ancien Règime.

Os liberais, como vimos, são favoráveis às liberdades individuais, tanto civis quanto econômicas. Os Anarquistas querem o fim do estado, sendo ele substituído por comunas ou corporações livres para competir e cooperar entre si. E os socialistas… Bem, os socialistas querem a impossível igualdade. Marx operacionalizou a inveja e o ressentimento dizendo que o homem tem direito a ser igual, o que equivale a dizer que ele tem o direito de ser o que não é, por natureza.

Não é que esquerda e direita perderam o significado em nossos tempos. Na verdade, nunca tiveram qualquer outro significado que não fosse a demonização do outro lado. Assim, um libertário como eu não aceita a pecha de direitista, ainda que defenda o livre intercâmbio de idéias, bens e serviços. Na verdade, é por esse motivo, que não aceita.

As perguntas que devem ser respondidas, ou: tá, mas o que você sugere?

Ao ouvir isso que você leu aqui, muita gente me pergunta: “ok, você é contra a interferência do estado na vida individual, então me diga: o que teríamos no lugar”?

Existem pessoas que, por sua condição, não têm capacidade produtiva. Devem morrer à míngua?

Não. Tenho filhos autistas, e faço parte de uma organização que defende seus direitos, e lhes provê ajuda para terem uma vida tão plena e digna quanto seja possível. Não foi o estado quem criou a Casa da Esperança.

Mas é o estado que nos sustenta. Infelizmente. Prestamos um serviço. Precisamos ser pagos. O ideal é que fôssemos pagos pelos próprios usuários dos nossos serviços. Em vez disso, esses usuários são extorquidos pelo estado, que serve como intermediário, nos paga mal e exige de nós que paguemos impostos escorchantes, que nos estão levando à ruína financeira.

Se não pagássemos impostos, compraríamos mais barato, viveríamos melhor. Poderíamos pagar serviços de saúde diretamente. Organizações mínimas e descentralizadas, de adesão voluntária, garantiriam que não se cometessem fraudes, ou violência. Nós mesmos, os que escolhêssemos nos armar, protegeríamos nosso patrimônio, e nossas vidas, e a dos nossos.

Parece caótico? Funciona em pequenos grupos. Significa a abolição de hierarquias naturais, baseadas no reconhecimento mútuo de excelências e habilidades úteis? Não. Qual o empecilho para o surgimento de uma sociedade assim?

Primeiro que um estado gordo atrai psicopatas e maníacos por poder. Essa gente não larga o osso fácil. Segundo que vivemos a “Era do Ressentimento” como diz o recente livro do Pondé. Sempre vai ter gente invejando o que o outro tem, o que o outro é, o que ele sabe fazer?

Eu não acho. Diferente do Pondé, acredito na humanidade. Nossa vida tem um propósito. Para mim, ser libertário, anarquista e individualista só significa aplicar a regra de ouro, proferida por um cabeludo muito doido há mais de dois mil anos: “não fazer ao outro o que não queres que te façam”. À exclusão de quem quer o pior para si, é claro.

Esses são os que fizeram do mundo essa merda que ele é hoje. Mas tem outro tipo de gente, cada vez mais numerosa, que em vez de correr para o papai estado toda vez que alguém ofende sua sensibilidade patética, paga o mal com o bem, e ama tão intensamente, como dizem Louis Pawells e Jacques Bergier em seu inspirador ensaio “O Despertar dos Mágicos”, que atravessa o mundo com seu amor.

É quando o estado desaparece, o poder desaparece, o dinheiro desaparece, e nos tornamos todos servidores uns dos outros e — Por este artifício — somos todos servidos. Voluntariamente.

“Se cada homem tiver a liberdade de fazer o que quiser, desde que ele não infrinja a liberdade comum de nenhum outro homem, então ele está livre para cortar seus laços com o Estado, abrindo mão de sua proteção e se recusando a pagar para sustentá-lo. É auto-evidente que, agindo desse modo, ele não faz nada que viole a liberdade dos outros, pois sua posição é passiva e, como tal, ele não pode ser um agressor”

Herbert Spencer

O que a liberdade é e o que ela não é

Liberdade não é atributo estático. Liberdade é esforço contínuo. Não é dada, é conquistada diariamente, no esforço contra as tendências externas ou internas da estagnação.

A liberdade é como a vida. Cada vez que despertamos pela manhã e nos reconhecemos no espelho, somos vitoriosos. Vencemos a gravidade, a entropia, a tendência de tudo a voltar ao chão de tudo.

Entender a liberdade como o direito negativo fundamental — ou seja — algo que não nos pode ser negado, já é exercício de liberdade.

Liberdade não é algo que nos possa ser dado, ainda que possa nos ser tirado. Você pode seguir seus próprios instintos animais, ser escravizado por eles e se proclamar livre. Você pode aderir a uma tendência cultural “da moda” e alegar ser livre. Mas você só é livre se puder optar, se puder discriminar, se puder julgar.

Liberdade é impensável sem consciência. Consciência de si, de suas possibilidades e limites circunstanciais, do alcance das suas atitudes em cada momento da sua vida. Consciência aqui como o estado de estar desperto.

Não existe algo como excesso de liberdade. Liberdade é possibilidade de escolher e tomar decisões, mas tem em seu âmago uma imensa reverência pela mesma possibilidade no próximo. Uma liberdade que escraviza o próximo não merece este nome.

Quando alguém diz que a liberdade “termina onde começa a do outro” não está falando de liberdade. Liberdade não termina deste jeito. A liberdade termina simplesmente quando cansamos de ser livres. Quando se exaurem as energias que mantinham nossa frágil individualidade, e seguimos a manada humana em seu fluxo de atividades banal, aleatório e destrutivo.

Se alguém define a liberdade como a adesão a certos princípios racionais, desconhece que uma pessoa pode ser escrava da razão e seus sistemas internamente coerentes, e por vezes externamente infecundos. Se a define como fazer o que se quer, obter o que se deseja, desconhece que se pode ser escravo do trem desgovernado do desejo.

Liberdade tem tudo a ver com individualidade. E a individualidade mesma é uma conquista evolutiva bastante recente. Milhões de anos de evolução nos trouxeram do mundo unicelular à complexidade fisiológica de nossos corpos, que engendram essa condição potencialmente dolorosa e jubilosa.

Fácil é largar o volante e ser colméia humana. Fácil é aderir a “ondas” de adesão ou rechaço. Difícil mesmo é — a partir de um ponto de vista único, simplesmente porque nenhum outro ser humano experimentou a vida da sua perspectiva, ser você mesmo. Saber os porquês dos seus atos, agindo dentro das limitações da sua compreensão.

A individualidade, tal como a consciência, ou qualquer outro atributo humano, é ancorada no funcionamento cerebral. O “bravo novo mundo” do século XXI é o conhecimento de como o cérebro possibilita essa expressão tão delicada, tão sutil, e, ao mesmo tempo, experimentada com uma concretude assombrosa, não raro dolorosa.

Ser indivíduo é em certa medida estar sozinho — a solidão da decisão, a solidão de não haver quem sinta sua dor e seu desejo — e nós não evoluímos sozinhos. Somos gregários. Dependemos uns dos outros.

A liberdade é trabalho, no sentido físico da palavra. Há desgaste, há gasto de energia para o seu exercício. Acomodar-se significa dobrar-se à tirania e ao abuso. Porque nos organizamos em estados-nação, para preservar nossa condição de abelhas numa colméia. Felizes, produtivas e amenas abelhas (até que alguém nos venha roubar o mel, pelo menos).

Mas não só somos abelhas numa colméia, como somos, nós mesmos, sofisticadas colméias. Não só pela multiplicidade de células mancomunada numa mesma direção, mas porque essas células se agrupam e se constituem em imensos complexos, cada qual contribuindo para o todo, cada qual fazendo a sua parte. Quando um grupo de células se rebela e quer fazer revolução, reinvindicando para si o que estava sendo livremente distribuído conforme uma ordem espontânea, temos uma neoplasia, aquele nome que seu médico usa para conseguir lhe dizer que você tem câncer.Algo que compromete a existência do organismo inteiro.

Metáforas biológicas, como esta, naturalmente, engendraram múltiplas tiranias.

Poucos discordam da posição de destaque do cérebro, quando se trata da importância dos vários órgãos que nos compõem. E grupos coletivistas do mundo inteiro já se arrogaram a posição de cérebro de um organismo-sociedade. Começam então a emanar ordens, em comitês concêntricos, chegando a uma realidade dura: no centro de todos, um indivíduo, o ditador.

Ele sempre está lá, assombrando todas as utopias, corrompendo todas as metafísicas políticas. O indivíduo, sua paradoxal força e fraqueza, esse desajustado, este fora-da-lei, este ente que não fica muito tempo aprisionado nas beatíficas visões de “paraíso na terra” que caracterizam qualquer totalitarismo.

Nenhum totalitarismo diz explicitamente “preciso controlar tudo e todos porque eu sou melhor que vocês”. Pelo menos nenhum que tenha vicejado. O totalitário quer o “bem comum”. Ele apela para o “sacrifício necessário”. Intimamente, porém, em tácito acordo de si para si para alguns poucos que compartilham dessa crença, é que ele admite que se julga iluminado pela “verdade”, uma verdade que sempre o beneficia às expensas de qualquer outro.

O coletivismo tem em seu âmago a egolatria que atribui aos individualistas. O individualista metodológico aceita que o “bem comum” é a possibilidade e o direito de cada um buscar seu próprio bem, sem ser obstáculo para ninguém empreender essa busca.

Hoje não precisamos mais entender mais os organismos como estruturados dessa maneira rigidamente hierárquica. O próprio cérebro é formado de circuitos de neurônios, orquestrados por células gliais (as células de suporte — as mesmas que causam câncer cerebral quando resolvem se rebelar). Estes circuitos tanto colaboram entre si quanto competem, num princípio “ganha-ganha” que apenas o despótico câncer — ou o eventual desgaste do tempo — vêm levar ao colapso.

Tudo nasce, cresce e morre. Amebas, pessoas, sociedades. Somos livres para fazer qualquer coisa? — idealmente, podemos fazer qualquer coisa que não comprometa a capacidade de escolha dos outros. Consentimento é a palavra-chave. Se admitirmos que tiranizar é excesso de liberdade, estamos implicitamente definindo a liberdade precisamente pelo que ela não é.

Deste modo, não existe “excesso de liberdade”. A liberdade que pode ser excessiva foi definida por alguém a quem interessa impor a sua tirania, como numa novilíngua orwelliana. Esta pessoa, nada além de outro indivíduo, em torno do qual se constela uma colméia alegremente servil, quer ocupar um centro utópico, a partir do qual possa tornar realidade essa utopia, maquinista de um “trem da história” que atropela quem nele não pode ou não quer embarcar.

Se desse certo, seria perfeito, mas às custas da própria individualidade. Afortunadamente, todo planejamento central é extremamente ineficiente.

Planejamento central eficiente, pressuporia uma perfeita capacidade de julgamento do planejador. Temos um cérebro e somos indivíduos sem que nenhum planejador humano tenha interferido.

Voltemos à biologia.

O fato é que as células não perdem sua identidade, num grupo. Cada qual luta para manter sua integridade, até o limite dos seus esforços. Mas perseguindo seus “interesses”, sobreviver e fazer o que faz melhor, uma célula sem nenhuma consciência da existência do sistema do qual faz parte contribui para o todo, de modo insubstituível. Outra célula fará o que ela faz, mas jamais do mesmo jeito. Por isso, mesmo copiando umas às outras ao longo do ciclo de vida de um organismo, as células vão se enfraquecendo, e o efeito visível disso é o envelhecimento…

É certo que, nos últimos tempos, alguns teóricos socialistas, aguilhoados pela crítica e também impelidos pelo temor da extinção da liberdade numa sociedade centralmente planificada, idearam uma nova espécie de “socialismo competitivo” que, esperam, evitará as dificuldades e perigos de um planejamento central, associando a abolição da propriedade privada à plena preservação da liberdade individual. Embora certas publicações especializadas tenham debatido esta nova espécie de socialismo, é bastante improvável que ela consiga atrair os políticos práticos. E se tal ocorrer, não será difícil mostrar (como já fiz em outro trabalho – veja Econômica, 1940) que esses planos repousam numa ilusão e pecam por uma contradição intrínseca. É impossível assumir o controle de todos os recursos produtivos sem, ao mesmo tempo, determinar por quem e em beneficio de quem esses recursos devem ser usados. Embora neste chamado “socialismo competitivo” a planificação por uma autoridade central se tornasse um tanto mais indireta, seus eleitos não seriam, em essência, diferentes, e a concorrência seria pouco mais que uma farsa.

F. A. Hayek, em uma nota de rodapé de “O caminho da servidão”, incapaz de prever o capitalismo brasileiro.

O fato é que a economia de livre mercado, e a especialização e divisão de trabalho que ela implica, é de longe a forma mais produtiva de economia conhecida pelo homem, e foi responsável pela industrialização e pela economia moderna sobre a qual a civilização foi construída. Esta é uma feliz consequência utilitária do livre mercado, porém não é, para o libertário, a razão primordial para o seu apoio a este sistema. Esta razão primordial é moral, e tem suas raízes na defesa dos direitos naturais da propriedade privada que foi demonstrada acima. Mesmo se uma sociedade baseada numa invasão despótica e sistemática dos direitos fosse provada como mais produtiva do que o que Adam Smith chamou de “o sistema da liberdade natural”, o libertário ainda assim apoiaria este sistema. Felizmente, como em tantas outras áreas, o utilitário e o moral, assim como os direitos naturais e a prosperidade geral, andam de mãos dadas.

Trecho de: Murray N. Rothbard. “O Manifesto Libertário.” iBooks.

O Povo contra o Estado

Todas as sociedades modernas são estados-nação. Seja onde você estiver me lendo agora, certamente você é cidadão de uma forma de governo. Como um peixe tem pouca idéia do que seja água, você nasceu e cresceu sem que sequer se desse conta disso. Não paramos para pensar se essa é a única forma de existir. Nem mesmo nos questionamos se já houve outra maneira.

Como se formaram os estados-nação que você conhece? Bem, por caminhos mais ou menos diferentes, todos os seres humanos aprenderam a se organizar de maneira bastante semelhante.

Houve um período, em que éramos nômades, caçadores e coletores que, para sobreviver, precisavam estar sempre se deslocando. Não sabíamos o que era cultivar a terra, ou acumular bens, pois não havia técnicas de preservação. Éramos um pouco menos diferentes dos grandes primatas, neste tempo.

Dominávamos instrumentos de corte e perfuração para caçar e triturar frutas e grãos, e vivíamos sem governo. Parece bonito? bom, mas neste tempo os anciãos tinham 30 anos. Eu, que faço 41 em maio, seria um túmulo, porque já enterrávamos nossos mortos. Mas não havia chefia de tribo, embora seja provável que houvesse chefia de família, ou clã, baseado na necessidade da acumulação de conhecimento: Era a transmissão oral, uma vez que ainda não havíamos inventado a escrita.

Quando começamos a cultivar a terra, algumas famílias ou clãs se sobrepujaram às outras, em parte pela força mesmo, e em parte porque desenvolveram melhores técnicas de plantio e conservação da colheita, e pela primeira vez desde a aurora da humanidade, fomos capazes de mandar.

Naturalmente, para que haja quem mande, é necessário que haja quem obedeça. Na luta por recursos e conhecimento, inauguramos a guerra. Guerras têm vencedores e perdedores: os últimos viravam escravos. Assim começou o desnivelamento, o fim da igualdade, a morte de um período em que a vigilância constante e a morte iminente nos igualavam pelo básico: a necessidade de sobreviver.

Como alguns tinham mais do que o necessário, passaram a trocar bens por serviços, ou simplesmente escravizar os mais fracos, para serem servidos. Como sempre usamos mitos para descrever o universo e a nós mesmos, pelo fato de ele ser esse lugar onde há tanto absurdo e tão pouco sentido, os primeiros mitos da criação e do destino do homem foram gerados.

Estes mitos não apenas continham lendas pitorescas, mas eram também meios de preservação de conhecimento de uma geração para outra. E eles normalmente continham justificativas de porque certo Clã tinha que ter poder sobre os demais. Eles eram os melhores. Foram criados da cabeça de Deus, e os outros, de partes menos nobres, ou qualquer outra razão que não fosse apenas a força.

Deviam existir arranjos nos quais a força era o elemento principal, mas logo ficou claro que o meio mais eficiente para conseguir submissão era garantir uma certa coesão social; não bastava que os detentores do conhecimento e do poder fossem servidos. Eles tinham que ser servidos voluntariamente. Assim era bem mais eficaz! Menos rebeliões, menos sensação de injustiça.

Acontecimentos reais eram mitificados, transformados em histórias mágicas. Surgiram os primeiros patriarcas hereditários.

Num mundo que não mais vivia apenas da caça e da coleta, mas também da agricultura, quem sabia plantar era rei. E na medida em que plantar se tornava uma atividade mais complexa, com mais informações a respeito de como conseguir acumular alimentos para os períodos de seca, por exemplo, quem detinha essas informações era dono dos demais. Outra conseqüência disso foi a especialização do trabalho. Marceneiros, oleiros, artesãos precisavam manufaturar utensílios para o uso de todos.

Famílias e clãs eram agora vassalos de um suserano. Gerações que cresceram ouvindo as antigas histórias de manutenção do poder, agora escritas, acreditavam piamente nelas, e acrescentavam a elas o seu conhecimento e sua imaginação, de modo que se formou toda a mitologia que sustentava o feudalismo.

O Poder era transferido hereditariamente, de geração em geração. Os feudos, à medida que se expandiam, iam submetendo uns aos outros, guerra após guerra, até que períodos mais longos de paz se estabeleciam, fronteiras eram mantidas e reconquistadas, e os feudos foram se fundindo em nações.

O sentimento de pertencer a uma comunidade que falava a mesma língua e obedecia a um mesmo rei passou a unir as pessoas entre si e contra outras, de grupos diferentes. E surgiram as monarquias absolutistas, donas de um poder econômico e bélico como nunca se havia visto na história.

O Poder, como havia sido desde que o primeiro homo-sapiens plantou a primeira semente, era concentrado nas mãos de um soberano, cuja família alimentava a mitologia de sua origem divina. Qualquer que fosse a religião envolvida, sempre havia justificativas de sobra para que algumas pessoas pudessem mandar, enquanto outras, precisassem obedecer, e se alegrar com isso!

Pois a sua natureza era inferior, e se não fosse pelo soberano, poderiam morrer, abandonados à sorte incerta das intempéries da mãe natureza. E, claro, iriam para o inferno, por se rebelarem contra seus senhores.

Sempre houve diferentes níveis de submissão, desde a escravidão pura e simples, onde uma pessoa era propriedade da outra, cujo dono poderia até mesmo matá-la, se isso lhe conviesse, até a vassalagem, e por fim a cidadania: pertencer a uma cidade-estado, a uma nação, tinha um preço, e este preço era a servidão.

Ou o trabalho era totalmente do soberano, como no caso da plena escravidão, ou uma parte significativa do trabalho iria para ele, na forma de Impostos. Imposto, como o nome já diz, é uma imposição. Não se pagava impostos pelo motivo que alegamos hoje, para termos “bem-estar social”, esta meta sempre prometida, e nunca cumprida dos programas de governo. Pagava-se porque a alternativa era a morte, a prisão, o degredo, a escravidão. Será que é tão diferente de hoje?

Em alguns momentos da história essa dinâmica da servidão chegou a ser percebida, e discutida com franqueza. Os Gregos criaram o conceito de democracia, onde os cidadãos (o que não incluía escravos, pobres nem mulheres) passaram a escolher seu governante.

O século XVII, o século das luzes, com o empoderamento progressivo da burguesia, uma nova classe composta de comerciantes, começou a resgatar os valores gregos e universalizá-los, tentando aplicar a idéia de que nascemos todos iguais a todos os homens. Por quê, perguntavam-se os sábios da época, seriam alguns homens melhores do que outros?

Apesar disso, sempre houve exceções à democracia, ao longo da história. As mulheres, por serem mais fracas fisicamente, e por sua natureza perigosamente emocional e sedutora; Estrangeiros com características físicas diferentes, como negros e orientais. “Narciso acha feio o que não é espelho”, como no sambinha magistral de Caetano Veloso sobre a cidade de São Paulo.

A burocracia estatal atual é o resultado de uma longa evolução histórica que começou pela brutalidade das guerras, pela submissão do homem pelo homem.

As premissas liberais, herdeiras do século das luzes, e da invenção da política pelos antigos gregos, conceberam a idéia de que todos os seres humanos são iguais em seu direito à liberdade, devendo ser diferenciados apenas por seu talento e habilidades. Antes disso, o poder era transmitido de forma hereditária. O fato de que alguém possa merecer o poder sequer era mencionado, muito menos questionado.

Como todas as idéias humanas, no entanto, a essa constatação se seguiu um banho de sangue: a Revolução Francesa. Desta época vieram as idéias de direita e esquerda como posição política. Contra o poder estabelecido, a esquerda: liberais e anarquistas, que começavam a formular idéias como as que eu estou esboçando aqui. Defendendo o Ancien Règime, a direita, interessada em manter os privilégios da aristocracia.

Numa curva ascendente, os modernos estados-nações colonizaram o mundo inteiro, até meados do século passado, em que os interesses desses diferentes governantes entraram em choque, provocando as guerras mais sangrentas que já vimos desde o início dessa história. O pós-guerra foi palco para contestações e mudanças radicais de costumes, como visto nos anos 50, 60 e 70 do século passado, com as mulheres reclamando sua posição em uma sociedade cada vez menos dependente da força para a manutenção da vida, graças à produção em larga escala possibilitada pelos novos meios de produção e distribuição criados a partir da Revolução Industrial.

E a crença num estado forte produziu o comunismo, o fascismo e o nazismo, manchas na nossa história, em que a ideologia estatista — necessariamente coletivista — foi elevada ao status de uma religião sem Deus.

Hoje, quando você fala em pagar imposto porque é um bom cidadão, em ajudar o governo a governar, em votar certo, saiba que o estado, que teve essa origem sangrenta, não deixou para trás as suas marcas históricas.
Se um escravo não é dono de seu corpo, ou de seu trabalho, ou de sua vida, o estado tenta fazer o mesmo conosco, ainda que de forma velada, embalada em histórias da carochinha, contadas por estatistas como Rousseau e outros intelectuais, uma casta financiada pelo estado para fazer apologia de sua eficácia incontestável.

Tendo nascido da opressão do homem pelo homem, o estado agora clama ser a única medicina contra… a opressão do homem pelo homem! você acredita nisso?

Pense duas vezes antes de pedir mais estado. Pense duas vezes antes de achar que o mal do mundo é o capitalismo. Pense duas vezes antes de achar que o estado é bonzinho, e que ele vai lhe salvar da ganância humana. Ninguém pode lhe salvar da ganância humana, exceto você mesmo, e a sua coragem de lutar pelo que é justo.

O capitalismo de estado, ou mercantilismo, com o favorecimento de certas empresas às custas da concorrência e do bem estar do consumidor, não funciona.
O comunismo é uma excelente maneira de tirar ilegitimamente de quem tem, e distribuir para todos, o que socializa a pobreza, enquanto os líderes do partido se refestelam como casta dirigente.

Para justificar isso, e baseado na espúria associação do poder estabelecido com as grandes indústrias, Marx inventou a história de que os capitalistas de seu tempo eram os herdeiros da história de dominação do homem pelo homem, financiado pela decadente aristocracia de seu tempo, ela sim, herdeira da longa tradição de autoridade fundada, nada mais nada menos, no direito de nascer melhor que os outros.

O problema não era o capitalismo. O problema era o estado. Era assim no tempo de Marx, é assim agora.

O problema não é o sistema mais eficiente de manejo do estado. O problema é o estado.

A tendência do estado é crescer, tornar-se totalitário. Já aconteceu antes na história humana. Está acontecendo novamente.

O estado, pense bem, é uma corporação. Uma corporação na qual se entra através de meios estabelecidos por ele mesmo, o concurso, ou o sufrágio. Neste último caso, temos uma classe inteira de políticos profissionais se revezando no poder, vivendo de… Impostos. O estado é a única corporação da sociedade que não vive dos seus serviços, ou dos bens que produz para melhorar a qualidade de vida da sociedade. O estado vive do seu trabalho, e do meu. Dito de outro modo, o estado é a única corporação que vive da expropriação, do roubo da sua propriedade, na forma de impostos.

Percebe a diferença? O SUS é um sistema de saúde muito mais caro que qualquer outro, e você sabe como funciona. O estado não precisa entregar um serviço bom para a população. Basta ser estado. O estado é a coisa mais parecida com vassalagem e escravidão que sobreviveu à revolução industrial.

O livre intercâmbio de recursos, serviços e idéias parece ser uma saída para essa escravidão gradual. Ser capaz de comprar e vender sem pagar o “toco” do estado, que funciona como aqueles mafiosos que vão nos estabelecimentos comerciais e solicitam verba para a “proteção” do lugar. Proteção contra a própria brutalidade.

Felizmente, há saídas. Há como jogar outro jogo. Filha do livre intercâmbio, nascida do mercado mais desregulado do planeta, o mercado dos computadores, a internet mudou tudo. Daqui a alguns séculos, falando dos nossos tempos como eu falei aqui no século das luzes, alguém irá dizer: tudo começou quando as pessoas puderam falar o que quisessem umas para as outras, sem fronteiras geográficas, essas feridas que a opressão deixou sobre a face da terra!

Essa visão não é majoritária, claro. Estar errado junto causou o Nazismo, e Sócrates, morreu sozinho, em nome da filosofia. Se fôssemos tantos, e estivéssemos suficientemente organizados, seríamos livres.

Tome a pílula vermelha!

E a gente se fala, se escreve, se vê e se entende pela Internet, essa bela anarquia!

Alexandre Costa, como roteiro do podcast Livre Intercâmbio, episódio 005.

As próprias palavras escondem os fatos e fazem das relações internacionais um drama glamoroso, no qual as nações personalizadas são os atores, e nos esquecemos com frequência excessiva de que são homens e mulheres de carne e osso que são os verdadeiros atores (…) se não tivéssemos a palavra “França” (…) descreveríamos então de maneira mais precisa esta expedição a Túnis de uma maneira semelhante a esta: “Algumas poucas destas trinta e oito milhões de pessoas enviaram trinta mil outras delas para conquistar Túnis.” Esta maneira de expressar o fato sugere imediatamente uma questão, ou melhor, uma série de questões. Quem eram estas “poucas” pessoas? Por que eles enviaram as outras trinta mil a Túnis? E por que estes lhes obedeceram? A construção de impérios não é feita por “nações”, mas por homens. O problema que se apresenta diante de nós é descobrir quais são os homens, as minorias ativas e interessadas, em cada nação, que estão diretamente interessadas no imperialismo, e então analisar os motivos pelos quais as maiorias pagam os custos e lutam as guerras exigidas pela expansão imperialista

Parker Thomas Moon, Imperialism and World Politics (Nova York: Macmillan, 1930), p. 58. APUD Murray N. Rothbard. “O Manifesto Libertário.”

A Cooperação é incompatível com ser maioria…

Num sistema baseado na divisão do trabalho, todo grupo especial que almeja privilégios não pode deixar de ser uma minoria. E as minorias não têm qualquer possibilidade de êxito, senão pela colaboração com outras minorias congêneres, ou seja, com outros grupos de pressão semelhantes.

Mises escreveu isso em 1958, em seu livro “As seis lições”. Continua tão atual e necessário como naquele tempo…

Trocar a expressão “mercado livre” por “pessoas engajadas em trocas espontâneas” não é apenas eufemismo: permite evitar a falácia da hipostatização, ou seja: atribuir existência concreta a um conceito abstrato.

Afinal, “Sociedade” sempre tem a concretude das ações estatais por trás de si, enquanto “Mercado” tem sempre as ações e decisões dos CEOs das grandes corporações. As multiplicidades ocultas sob esses “deuses antagônicos” podem tanto beneficiar como prejudicar à causa da liberdade.