A patrulha e o que eu penso da campanha contra o estupro

O estupro é um crime hediondo. Independente de quantas mulheres são estupradas por minuto em qualquer lugar do mundo. uma vez já é demais. É uma das maiores violações da liberdade, da dignidade e da soberania individual de uma pessoa. Isto deveria ser óbvio para todo mundo, mas infelizmente não é.

A campanha viral de várias mulheres na internet é extremamente legítima, curti e compartilhei, como todo mundo. Até eu resolver fazer campanhas análogas e começar a ser xingado, no Facebook e na vida real, e acusado de estar destruindo a legitimidade da campanha.

Apesar de já saber que a dinâmica opressiva criminalizadora de opinião e monopolizadora da virtude humana que caracteriza muitos “ativistas” não se baseia na lógica, ou na justiça, fiquei matutando sobre como uma brincadeira inocente (e que diz algumas verdades) pode virar anátema, simplesmente por usar um tema de uma campanha séria, ou deslegitimizar essa campanha.

Chegaram ao ponto de me deixar puto, pois não sou de ferro, e não mereço ser xingado pelo que não fiz. Isso me fez publicar no Facebook que a mulherada tinha pago petinho por nada. Exagerei. Não foi por nada. Ficaram fotos belíssimas pelo caminho (diminuíram com a divulgação do erro do IPEA, mas tudo bem).

Além disso, a mobilização trouxe um mote que pode ser perfeitamente aproveitado por várias campanhas análogas, como a que aponta o erro de se considerar “ostentação” uma justificativa para o assalto. Ou mesmo para a taxação diferenciada por renda. A estrutura do argumento é a mesma.

Para vocês terem uma idéia do que ouvi, sinto-me até na obrigação de dizer que sei que assalto e estupro são crimes diferentes, que o estupro é um crime mais grave, etc. O fato de eu achar que os argumentos que culpabilizam as vítimas de qualquer crime são — em si mesmos — justificativas para o crime não implica obrigatoriamente numa equiparação de suas gravidades.

O mais estranho é não se contentarem com essa explicação. Queriam minhas fotos apagadas do Facebook. Queriam uma retratação, como se eu estivesse cometendo um crime. E o que me doeu mais foi receber isso de membros da minha própria família… mas eu me acostumo. Tenho que conviver com a estupidez alheia desde que nasci, e ela ainda me surpreende, aos 41 anos de idade.

Meu recado para os “heróis” de plantão que querem ter o monopólio da virtude é esse: não sou estuprador. Não era antes da pesquisa, não sou agora. Não acredito que somos uma nação de estupradores, e não acreditava, mesmo quando a pesquisa foi divulgada.

Mas isso não diminui a gravidade do crime do estupro, nem a do crime de assalto à mão armada, nem a atitude covarde da psicopata que mandou cortar o pênis do namorado, porque ele recusou-se a casar com ela. A diferença destes últimos dois, é que não existe o “grupo vitimizado”. A semelhança entre os três casos é que um ser humano é privado de sua liberdade, de sua dignidade. Nenhuma atitude, em nenhum dos três casos justifica os crimes.

Não importa que você escolha um crime para ser sua cruzada pessoal, todos os outros continuam sendo cometidos, porque a humanidade é toda vulnerável a abusos e, graças a Deus, pode usar sua liberdade para protestar, com roupa ou sem roupa, usando cartazes ou iPads, enchendo a internet, essa bela anarquia, de cores, formas e nomes.