Brazil

Quando usou a música “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso como tema para sua releitura de “1984”, a famosa distopia de George Orwell, Terry Gillian, um dos integrantes do grupo britânico “Monthy Python”, pensou no Brasil como inspiração para o sonho de liberdade de seu personagem principal, Sam Lowry.

Ele pensou na imagem estereotipada de sol, mulatas e a doce indolência do Rio, que tem se erosionado à medida em que a internet torna as imagens que temos do estrangeiro menos fantasiosas, mais reais e sangrentas do que em qualquer outro período da história.

As máquinas de escrever de uma das versões da música para o filme representavam a pesada burocracia estatal, o “escritório central”, enquanto o sonho de Lowry era de ser um pássaro embalado por uma orquestra tocando suavemente “Aquarela do Brasil”

A letra em português exalta a lua, os coqueiros, a rede, transformando um país continental em seu principal cartão postal, e a versão cantada por Geoff Muldaur, e realizada por Michael Kamen, especialmente para o filme, vai pelo mesmo caminho.

Começa em um assobio e segue a voz de Muldaur, em tom extraordinariamente nostálgico (evocando os anos 40, em plenos 80):

"Brazil, where hearts are entertained in June We stood beneath an amber moon And softly murmured 'someday soon’...”

Este filme, precisamente ao contrário de sua intenção original, me lembra o Brasil. O peso de um estado cada vez mais inchado e ineficiente, a intromissão do Leviatã em todos os assuntos da vida pessoal e privada, o seqüestro do produto do nosso trabalho apelidado de Impostos (e que, sendo uma apropriação não consentida, não passa de roubo puro e simples). Está tudo lá. Está no livro de Orwell e na deliciosa realização de Gillian.

A música, composta em um dos períodos ditatoriais que vivemos (o Estado Novo), dava a todos a impressão de sermos um povo pacífico, no fundo da rede, mirando as bundas das morenas e indolentes quanto ao sequestro de nossa liberdade. Era o hino oficial do Estado-Novo, nosso fascismo tupiniquim, inspirado no original italiano, de onde Vargas retirou a inspiração para a CLT, há três quartos de século chamando atraso de benefício, tal como, na distopia Orwelliana, se chama de amor a guerra.

Sempre ouço a versão de Gillian, pensando na queda para dentro do personagem Lowry na cena final, e comparando-a à a apatia do fundo da rede. Ao mirar o seu contrário, “Brazil, O Filme” fala mais de nós do que gostariam políticos e burrocratas coletivistas, de esquerda ou de direita, que sonham com um estado que escravize o indivíduo de tal modo, que ele já não sabe a diferença entre liberdade e escravidão, de tão apático. Alcançou um nirvana imaginário, em sua rede utópica, mirando bundas-fantasma, e murmurando o sambinha magistral do mestre Ary Barroso…