Vocês se lembram de Alice
No pais das Maravilhas?
Foi Lewis Carrol quem disse
Desde as britânicas ilhas

Um dia correndo à beira
de um barranco, pela tarde
Viu um coelho de fraque
Com um relógio de algibeira
E dizendo: “É muito tarde!”

Fazendo um enorme alarde,
No barranco mergulhou
E sumiu por um buraco;
Eu que sou brasileiro
E que nem menina sou

Um dia também vi um coelho
Que ontem mesmo Deus levou.

Seu nome era George
Como um Rei da Inglaterra
E também era Romão
Como o santo padim Ciço

Eu era um menino magriço
Quando vi esse coelho
Girando em torno do eixo
Como um destro bailarino

E o mundo das maravilhas
Cheio de mistério e graça
Comédia e romantismo
Foi o mundo do autismo.

Ele entrou aperreado
A girar pelo salão
Olhando o ventilador
Sem vergonha, nem pudor
Rodando como um pião.

E eu que nada sabia
A não ser música e poesia
Comecei a me mostrar
Dancei balançando a Pélvis
Imitando um tal de Elvis
E tomei sua atenção
Parou de girar ligeiro
Sorriu e sentou no chão.

Ele deve ter pensado
Na hora em que se rendeu:
“Vou ver o show desse bicho,
Que ele é cheio de reboliço
É mais doido do que eu”.

Ele tinha sido expulso
Do único lugar da cidade
Que atendia sua gente
Só por causa da idade:

Foi ficando adolescente
E quem lhe cuidava antes
ficaram com medo dele
Que estava grande e forte

Mas hoje, que o anjo da Morte
Já lhe recolheu a Deus
Vim aqui para lembrar
Aquele coelho apressado
Que, com seu giro ligeiro
Que os autistas não são ilhas
Foi de todos o primeiro
A me apontar o caminho
Do país das maravilhas.

Neste país de alegrias
E intensos sofrimentos
Onde tem gozo e tormento
Fiz meu pouso, minha casa

Vai George, bate as asas
E volta para bem alto
De onde vieste ensinar
O teu giro e o teu salto

E no caminho plantar
Além de carinho e lembrança
A semente que tornou-se
Nossa Casa da Esperança!

O primeiro dia da roda de conversa me deixou animado e inspirado. Aqueles que foram demonstraram compromisso com o que realmente estamos fazendo na Casa da Esperança.

Vamos criar um núcleo duro de positividade nessa nossa pasárgada, em que somos todos amigos do Rei: o Rei dos Mundos, o Deus dos seres humanos.

Nele buscamos refúgio contra aqueles que lançam sugestões maldosas sobre os de firme resolução e contra o invejoso, quando inveja.

Segunda parte do episódio sobre comportamento agressivo do podcast da Casa da Esperança

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Comportamento Disruptivo no autismo — primeira parte

Comportamento Disruptivo no autismo — primeira parte

Linda e o que o amor cura

A cena apoteótica da personagem autista Linda, da novela “Amor à Vida” vivida por Bruna Lynsmeyer, dividiu pais de autistas e profissionais.

O maior mérito à abordagem de Walcyr Carrasco ao autismo foi o de chamar atenção para o tema em uma escala inédita. A comunidade Autismo no Brasil no Facebook, da qual sou um dos moderadores, quadruplicou em número de participantes. As aparições da personagem quase sempre geraram elogio ou protesto.

Vejo a personagem Linda como um autista “didática”. Ao longo de diversos momentos da novela, ela representou autistas de vários pontos do espectro, o que é raro acontecer na mesma pessoa.

Houve, além disso, a atitude coerciva e super-protetora da mãe da personagem, apontada pelos demais personagens como sendo culpada das dificuldades da filha.

A fala apoteótica da personagem foi uma adaptação de um depoimento de Carly Fleischmann, uma garota considerada de “baixo funcionamento” que descobriu no computador um profuso meio de expressão, comovendo o mundo ao demonstrar que havia uma subjetividade por trás de uma aparência de profundo alheamento.

Mas o autismo é um fenômeno complexo cuja apresentação varia amplamente, e casos como o de Carly Fleischmann são raros.

A tarefa de criar um autista hipotético que represente fielmente a condição, é impossível. Só foi tentada em filmes cujo argumento é a velha e ultrapassada tese das “mães geladeira”, a de que o autismo é resultado de um amor inadequado.

Por mais que o autismo tenha sido apresentado como uma diferença biológica na novela, é difícil não ver na mãe de Linda vestígios dessa idéia tão prejudicial.

Por outro lado, a idéia — muito em voga na internet — de que os autistas são “anjos azuis” assexuados é refutada impiedosamente pelo romance entre Rafael e Linda, que embora envolvido em um manto de “pureza”, é claramente uma relação erótica.

Depois, o tratamento, mostrado em curtas cenas onde a atriz fazia esteira e arte-terapia, e iniciado tardiamente, dificilmente produziria os avanços mostrados.

No entanto, a questão de se e como pessoas com autismo grave devem viver sua sexualidade é válida, e deve ser formulada sem pieguice ou comiseração.

O problema que vejo é a difusão de fórmulas simplistas como “o amor cura tudo”. A maioria das pessoas autistas precisa de atenção a vida inteira.

Se o amor tem um papel, é o de transformar o que é facilmente visto como um fardo em um empolgante caminho de aprendizado e crescimento para quem convive com pessoas autistas.

Surto de sarampo devia se chamar “Surto Wakefield”

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