Fátima ganha o 19° prêmio Claudia

Há vinte anos, uni minha vida à da pessoa com quem mais brigo e à qual mais amo em toda a minha vida.  Nosso casamento não se deu através do ofício de um padre, um pastor, um rabino ou um sheikh.  Foi Deus mesmo, que, quando quer unir o que deve ser unido, ninguém separa.

Não foi o arrebatamento da paixão que nos manteve juntos todos esses anos.  Ele já até chegou a fortalecer nossos laços em momentos de solidão,  a solidão de não poder ser senão a gente, aquela solidão inescapável de estar dentro da própria pele. Mas o que faz minha vida com Fátima ser tão rica,  é,  precisamente o fato de,  a despeito de inúmeras tentativas de sermos iguais, “naquela fase do amor em que se é um”, como na música de Fátima Guedes, sermos condenados à diferença, e abençoados por ela. 

Ela é da geração que sonhou com o comunismo. Eu sou de uma geração cosmopolita, que assistiu ao nascimento da era da informação.  Eu sou um dervixe muçulmano,  ela é espírita. Ela vota na Dilma. Eu voto no Aécio. 

A despeito de o meridiano que divide politicamente o Brasil passar bem no meio da nossa cama,  ele não nos impede de dormir de conchinha. Porque nosso compromisso nunca teve a ver com política partidária. Nosso projeto em comum é tratar pessoas com autismo como indivíduos plenos, capazes de escolher seu caminho.  No mundo em que cabemos os dois,  liberdade e justiça fazem amor com sofreguidão. E às vezes “quebram o pau”, claro.

Além disso,  há ainda o impalpável destino, essa força que nada oblitera,  e que nos deu filhos desafiadores e maravilhosamente difíceis. Nossa vida tem os prazeres e as chatices de qualquer vida, mas é muito mais alegre porque estamos juntos.

O céu da minha cabeça fica nublado,  sempre que a gente “quebra o pau”, e olha que isso tem acontecido um bocadinho, nos 20 anos em que estamos juntos. Mas como isso me faz crescer. Se um argumento meu consegue convencê-la, não há quem possa com ele.  Brigar com ela é melhor que estar longe dela. Viver com ela ajuda a me definir.

Ontem, Fátima ganhou o 19° prêmio Claudia,  na categoria “trabalho social”. Ela não acreditava que iria vencer. Muitas mulheres admiráveis concorrendo.

Silenciosamente, porém, eu nunca deixei de acreditar. Da mesma maneira que eu disse a ela, aos 20 anos de idade que tínhamos muito a ensinar um ao outro, propondo namoro,  ou como quando decidimos adotar os dois filhos que tivemos juntos, senti o que já me acostumei a chamar de “cheiro de destino” no convite da editora Abril.

Há 21 anos, quando começamos a Casa da Esperança, ser autista era mais difícil. Nosso trabalho e a imensa teimosia de Fátima nos mantiveram no caminho. E melhoramos a vida de muita gente.

Como é difícil ajudar as pessoas no Brasil! Qualquer pessoa sensata teria desistido pouco tempo depois da primeira crise financeira.  O fato é que a sensatez da minha mulher é de um tipo diferente.  É do tipo que muitos chamam de insensatez.  Eu chamo de obstinação.  Uma obstinação que ela tem que me emprestar, às  vezes, porque me falta.

Te amo,  meu amor.  Sempre soube que você ia ganhar esse prêmio.  Você merece.  O mundo é mais alegre, mais bonito e mais justo, por você estar nele.

Assim!

Se alguém te perguntar
Com que se parece
A perfeita satisfação
De todo o nosso êxtase
Ergue o rosto,
E diz:

— Assim.

Quando alguém mencionar a graciosidade
Do céu noturno, sobe no telhado
E dança , e diz:

— Assim.

Se alguém quiser saber o que é o espírito
Ou o que significa a fragrância de Deus
Curva tua face em sua direção
Mantém o rosto colado

— Assim.

Quando alguém citar a velha imagem poética
Das nuvens que pouco a pouco encobrem o luar
Lentamente afrouxa os nós do teu manto

— Assim.

Se alguém te perguntar como Jesus ergueu os mortos
Não tenta explicar o milagre
Beija-o nos lábios.

— Assim. — Assim.

Quando alguém te perguntar o que significa
“Morrer de amor”, aponta

— Aqui.

Se alguém perguntar tua estatura, franze o cenho
E mede com teus dedos o espaço
Entre as rugas de tua testa.

— Desta altura.

A alma às vezes deixa o corpo, então retorna.
Quando alguém não acreditar nisso,
Caminha de volta à minha casa

— Assim.

Quando os amantes sussurram
Estão contando nossa história.

— Assim.

Eu sou um céu onde espíritos vivem
Mira este azul profundo
Enquanto a brisa conta um segredo

— Assim.

Quando alguém te perguntar
O que há para ser feito
Acende uma vela em suas mãos.

— Assim.

Como o perfume de José chegou a Jacó?

— Huuuuu.

Como Jacó olhou de volta?

— Huuuuu.

Um vento suave limpa os olhos

— Assim.

Quando Shams retornar de Tabriz
Sua face surgirá por detrás de uma porta
Para nos surpreender

— Assim.

Jallaluddin Rumi
Poeta Sufi do séc. XIII
From ‘The Essential Rumi’, Translations
by Coleman Barks with John Moyne
Translated to Portuguese from the English translation
By Alexandre Costa e Silva