O indivíduo em construção

(Inspirado em Vinícius de Moraes)

Era ele quem tinha casas
Quem andava pelo chão
Como um peixe de águas rasas,
Evidente, sem trapaças
De intelectuais de plantão.

Mas tudo desconhecia
De sua individuação
Não sabia por exemplo
Que o ser humano é um templo
Com ou sem religião.

Como tampouco sabia
Que era ele quem existia
Sendo a sua sociedade
Uma simples ficção.

De fato, como podia
Um indivíduo em construção
Saber porque o sim do povo
Vale mais do que o seu não?

Conceitos, ele empilhava
Assistia, ouvia, lia.
Quanto ao não, quem ouviria?
Não já haviam ouvido o povo?

E assim o indivíduo ia
Com suor e sentimento
Vendo com os próprios olhos
E o filtro do pensamento

Além uma igreja à frente,
Um quartel e uma prisão
Prisão de que sofreria
Caso displicentemente
Insistisse em dizer não.

Mas ele desconhecia
Um pequeno e simples fato:
Que o indivíduo cria coisas
E o povo é uma abstração

De forma que, certo dia
À mesa a tomar café
O indivíduo foi tomado
De uma forte intuição
Ao constatar, assombrado
Que povo, mercado, estado
Governo, polícia, nação
Era ele quem os fazia
Com sua imaginação.
Ele, um singelo indivíduo
Um indivíduo em construção.

Olhou em torno: idéias
Bens, serviços, congresso,
Tribuna, república, nação!
Tudo, tudo o que existia
Tivera concepção
Na cabeça de alguém
Era tudo invenção
De um indivíduo em construção

Ah, homens de pensamento
Que tomam o real por ficção
Nunca verás o que viu
O indivíduo naquele momento

Naquela cabeça vazia
Que ele deixou domar
Um mundo novo nascia
Que ele mesmo criava.
Em quem ninguém ia mandar.

O indivíduo iluminado
Olhou sua própria mão
A mão de um indivíduo
Indivíduo em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a noção
De que era muito bela.

Compreendeu num clarão
Neste instante solitário
De que imposto e inflação
E os ladrões do erário
Consumiam a produção
Que com um suor assíduo
Realizava o indivíduo!

Cresceu em alto e profundo
Em largo e em sua razão
E como tudo o que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
Fazer com tenacidade
O indivíduo adquiriu
Uma nova dimensão
A da sua liberdade.

Um fato novo se viu
Que todos achavam loucura
Ou direita, ou esquerda
Ou singela utopia
O que um indivíduo falava
Outro indivíduo ouvia

E assim o indivíduo
Que pensava ser mais um
Descobriu que era único
Descobriu que o sim do povo
Barulhento e ruidoso
Em uma massa indistinta

Não se comparava ao verso
Que escrevia com sua tinta
Uma tinta que só ele
Podia usar no universo
Porque a forjou com sua história

Descobriu o indivíduo
Por quê o povo não tem memória
É que o povo é um conceito
Conceito não fala ou sente
Conceito não é gente…

O indivíduo viu então
Que haviam indivíduos
Que delimitaram o chão
Criaram regras inúteis
Uma sutil escravidão
Chamada estado-nação.

Descobriu que seu carrinho
Que comprava a prestação
Era só uma bicicleta
Comparada ao petrolão.

Que sua cerveja preta
Era o uísque do ladrão
Sua blusa C&A
Era o Armani do ladrão
Que o seu apartamento
Vinte anos financiado
Era a mansão na Itália
Que o ladrão tinha comprado
Com dinheiro dos impostos
Suor que tinha suado
O povo que é de verdade
O povo que há trabalhado.

E o indivíduo disse: não!
Encontrou uns tantos outros
Nenhum igual a si mesmo
Que não vagavam a êsmo
Sabiam que eram únicos

E as cercas do curral
Chamado estado-nação
Estremeceram, cansadas
Inda não foram ao chão.

O universo, Deus, ou mesmo
Uma cega evolução
Fez de mim um indivíduo
Indivíduo em construção.

Não há outro como eu
E nem mesmo poderia
Ninguém mais terá vivido
A vida que eu viveria.

Mas se você sente o mesmo
E se pensa um universo
Uno, único, prosa e verso
Não diga sim, adormecido
À moderna escravidão.

Reclame que o produto
De sua dura labuta
Não pode ser surrupiado
Por um bando de ladrão

Cambada de celerado
Que nos transforma em gado
Pastando, dançando samba
E assistindo ao Faustão.

Se você e eu somos gado
Os donos dessa fazenda
São essa classe política
Seja de esquerda ou direita
E o juiz que se venda.

E o indivíduo tirou a venda
Dos olhos, num supetão
E viu que os fazendeiros
Estavam endividando
As futuras gerações
Os que ainda viverão.

Indignação sincera
Lhe brotou no coração
E dentro da tarde mansa
A razão cresceu, na certa
De um homem adormecido
Razão porém que fizera
Em uma alma desperta
O indivíduo em construção!

Alexandre Costa e Silva
segunda-feira, 17 de novembro de 2014

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