Eduardo Campos, a morte, o cérebro, Deus, e as teorias da conspiração.

Um acidente aéreo como o que matou no último dia 13 de agosto o carismático candidato à presidência da República Eduardo Campos, do PSB, sempre deixa histórias que se contam em voz baixa nos velórios. Gente que ia embarcar e por algum motivo não o fez; atrasou-se, teve problemas para embarcar, ou mesmo “não deveria estar lá”, mas estava, por algum motivo aparentemente banal.

Isso acontece porque a morte, a certeza universal, é também um dado absurdo, do ponto de vista do potencial morredor, no caso, eu e você. E o cérebro não evoluiu para lidar com o absurdo.

Pense bem: só o fato de ele ser um cérebro indica um desfecho evolutivo positivo. O cérebro se vê do ponto de vista dos vencedores dos “jogos vorazes” da evolução das espécies. Para ele as histórias têm que ter finais felizes.

Deste modo, céticos ateus explicam a predominância da crença em Deus sobre o ateísmo materialista, uma explicação mais simples — embora menos elegante — do universo: a de que estamos aqui por acaso, a existência de tudo é um acidente destinado a desembocar no nada.

Eu que sou cético sem ser ateu, penso que há um pouco desse “triunfalismo” cerebral na estrutura de todas as histórias que contamos. Realmente, a crença em uma ou várias divindades em todas as suas ricas variações, pode ser explicada de modo coerente pela teoria da evolução, sem lacunas. Para mim, talvez até seja esse o problema. Histórias sem lacunas não produzem outras histórias: são estanques, infecundas.

A teoria da evolução explica bem a crença em Deus, mas não explica Deus. Até o faz, mas como na famosa história sufi, descreve o dedo apontando para a lua, e não a lua mesma. Deus faz sua entrada triunfal sobre as nossas certezas precisamente no imponderável, no imprevisível — essa súbita circunstância que nos põe a contar histórias como uma nascente a lançar águas num rio caudaloso.

Quem imaginaria um cenário político como o que se configurará nos próximos dias, sem a figura carismática do candidato do PSB? Ainda que eu não fosse votar nele, sua morte me deixou perplexo. E como dizia Rumi, o poeta e mestre sufi do século XIII, “o homem de Deus está aturdido e perplexo”.

Ela inclusive veio em um mês onde eu já havia perdido duas pessoas significativas, então pensei: a bruxa está solta. Azrael, o anjo da morte, na tradição islâmica, veio à terra com uma lista longa de nomes, desta vez, com sua estrita obediência a Deus, para colher vidas de volta e devolver à terra o que tomou — contra a vontade desta ultima, diz uma outra história sufi — para fazer o homem.

Da mesma fonte de que brotam essas histórias maravilhosas, que nos aliviam o peito e nos inspiram a continuar caminhando na direção da morte, a perplexidade, brotam também teorias da conspiração. Elas são os mitos dos ateus. E — convenhamos, são bem menos elegantes.

Enquanto uma lei sancionada pouco tempo antes do acidente, decretando sigilo a respeito do conteúdo das caixas pretas de aviões em acidentes aéreos, a afirmação estúpida da presidente Dilma de que “em eleição se faz o diabo” a um acessor do próprio Campos, e a queda do jato em que viajava, são articuladas em um enredo repleto de conflito e sordidez, fico apenas com a perplexidade. Fico com ela, que é mais elegante e fecunda. “Aturdido e perplexo”.

Se houve ou não sabotagem, cedo ou tarde saberemos. Ou talvez nunca saibamos com certeza. A única coisa de que tenho certeza é de que não existe analista político que tenha sido capaz de prever este trágico resultado e seus desdobramentos políticos.

Isso me lembra uma frase, que se interpretada literalmente nos imobiliza, e que se lida com um coração ardente, nos inspira e consola: “quem sabe que até os fios de cabelos de sua cabeça estão contados, não mais planeja”.

“Não mais planeja” não significa literalmente ser o louco do tarô, com um cachorro mordendo-lhe a bunda e andando a êsmo rumo ao abismo da morte. Significa apenas perplexidade, aceitação da fatalidade e — puxando a brasa para minha sardinha islâmica — submissão a Deus, que, no Gênesis, empregou o singular para criar todas as coisas, e, por último ao criar o homem, usou o plural: “façamos o homem”.

Já ouvi diversos porquês desta mudança de singular para plural no sujeito do verbo: uma afirma que Ele empregou o plural majéstico, outra que se referiu a si e aos anjos. Inúmeras interpretações foram dadas para essa sutil diferença no enunciado, entre o “faça-se a luz” e o “façamos o homem”. A mais fecunda, na minha opinião é a dos judeus hassidicos, que afirmam que Ele usou o plural porque estava, ao mesmo tempo, criando o ser humano e convidando-o a criar sempre a si mesmo, junto consigo.

Nem sempre Sua contribuição na criação contínua do homem é atirar flores em nosso caminho. Às vezes, atira aviões sobre as nossas casas. Que Ele nos proteja a todos, e console a família de Eduardo Campos nesta hora tão difícil.

Quanto a mim, e às teorias da conspiração, bem, algumas delas podem até se revelar factíveis no fim das contas, mas eu prefiro o mito clássico: com ou sem sabotagem, Deus, que tudo sabe e vê, paradoxalmente onipotente e onipresente, decidiu que, no dia 13 de agosto de 2014, exatamente nove anos após a morte de seu avô e mentor político Miguel Arraes, Eduardo Campos encerraria seus dias sobre a terra. Vivamos com isso, ainda que por não ter jeito.

Mas eu, sendo o Aécio Neves, ou a Marina Silva, mandava inspecionar o jato sempre que tivesse de voar. Vai que alguém resolve “fazer o diabo”… Não necessariamente precisa ser a autora da frase infeliz. Até acho que, se tal fosse o caso, ela seria muito mais estúpida do que aparenta.

Aqui a perplexidade dá lugar a um ditado oriundo das tradições do profeta Muhammad: “confia em Deus, mas amarra teu camelo”.

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