A pobreza pode fazer bem ao PT, mas nós queremos acabar com ela.

Aécio Neves, sobre a (falta de) transparência dos cadastros do Bolsa-Família.

Errado, candidato. A pobreza faz bem ao estado e a quem o comanda. O sr. sabe disso, porque é político, e tira proveito da pobreza, como todo político. Neste sentido não tem política velha nem nova: o estatismo é sempre dependente de uma pobreza que o legitime, uma vez que o mero nacionalismo vai se esgarçando e deixando de cumprir essa função…

A candidatura de Marina Silva, para quem só sabe torcer contra, como eu, é muito animadora. Depois de 12 anos, há uma perspectiva real de derrotar o PT. E há uma perspectiva real de derrotar o PSDB, sem o qual o PT tende a desaparecer, pois perde seu adversário amestrado.

O conceito segundo o qual é necessário trocar, a cada quatro anos, o bandido que nos governa (Montesquieu, “O Espírito das Leis”, volume 2), finalmente pode ser aplicado. Tira-se um, põe-se outro qualquer em seu lugar. O outro qualquer é Marina Silva? Eu topo.

Diogo Mainardi, em artigo para a Folha de São Paulo. Nunca li nada sobre essa eleição com que concordasse tanto.

Quem faz política para salvar a humanidade não negocia, mas impõe. Marina, agora candidata do PSB à Presidência, não aceitou assinar compromisso nenhum, rejeitou acordos políticos firmados por Campos e impôs um nome para a coordenação da campanha. Ela se considera, por exemplo, pura demais para apoiar a reeleição de Geraldo Alckmin (PSDB) em São Paulo, que tem como vice Márcio França, do PSB, ex-braço direito de… Campos, aquele cujo retrato a agora presidenciável brandiu à beira do caixão.

Reinaldo Azevedo em seu blog, exato como (quase) sempre.

Assim!

Se alguém te perguntar
Com que se parece
A perfeita satisfação
De todo o nosso êxtase
Ergue o rosto,
E diz:

— Assim.

Quando alguém mencionar a graciosidade
Do céu noturno, sobe no telhado
E dança , e diz:

— Assim.

Se alguém quiser saber o que é o espírito
Ou o que significa a fragrância de Deus
Curva tua face em sua direção
Mantém o rosto colado

— Assim.

Quando alguém citar a velha imagem poética
Das nuvens que pouco a pouco encobrem o luar
Lentamente afrouxa os nós do teu manto

— Assim.

Se alguém te perguntar como Jesus ergueu os mortos
Não tenta explicar o milagre
Beija-o nos lábios.

— Assim. — Assim.

Quando alguém te perguntar o que significa
“Morrer de amor”, aponta

— Aqui.

Se alguém perguntar tua estatura, franze o cenho
E mede com teus dedos o espaço
Entre as rugas de tua testa.

— Desta altura.

A alma às vezes deixa o corpo, então retorna.
Quando alguém não acreditar nisso,
Caminha de volta à minha casa

— Assim.

Quando os amantes sussurram
Estão contando nossa história.

— Assim.

Eu sou um céu onde espíritos vivem
Mira este azul profundo
Enquanto a brisa conta um segredo

— Assim.

Quando alguém te perguntar
O que há para ser feito
Acende uma vela em suas mãos.

— Assim.

Como o perfume de José chegou a Jacó?

— Huuuuu.

Como Jacó olhou de volta?

— Huuuuu.

Um vento suave limpa os olhos

— Assim.

Quando Shams retornar de Tabriz
Sua face surgirá por detrás de uma porta
Para nos surpreender

— Assim.

Jallaluddin Rumi
Poeta Sufi do séc. XIII
From ‘The Essential Rumi’, Translations
by Coleman Barks with John Moyne
Translated to Portuguese from the English translation
By Alexandre Costa e Silva

People who have fallacious objectives are like the barren soil. The flowers grow from soil which is composed of the right objectives.

(via idriesshah)

“Pessoas que têm objetivos falaciosos são como solo estéril. As flores crescem de um solo que tem os objetivos corretos”

— Idries Shah

“Abu Hassan insistia em dizer:

‘Pensar sobre os assuntos deste mundo não tem nada a ver com o tema do caminho Dervixe.

Pensar sobre o próximo mundo não tem nada a ver com o tema do caminho Dervixe.

Eles relacionam-se entre si como o ontem com o amanhã.

O Hoje — algo similar, mas que tem sua própria individualidade — este é o tema do caminho Dervixe.’”

Idries Shah, “Dervishness”

“The Dermis Probe”

Teu ofício essencial

Cada pessoa no mundo
Seja homem ou mulher
Tem um um mistério no fundo:
procurar saber quem é.

Tem uns que espicham olho
Em cima do que é alheio
Mas eu que não sou caolho
E enxergo meu caminho
Sei que nunca estou sozinho
Acho isso muito feio.

Digo não estou sozinho
Porque junto sempre tem
Só filmando, caladinho
E querendo nosso bem
Deus, Allah, ou Jeová
E outros nomes que Ele tem.

Criou a humanidade
pra fazer essa jornada
Entre um nada e outro nada
Pela estrada de tudo
Ao menos que a gente saiba

Não tem poema que caiba
O tamanho dessa estrada
Não importa sua eloqüência
o Poeta fica mudo

Nem cabe o sentido da vida
Essa via acidentada
E tão cheia de alegrias
Onde toda a gente é lançada
Vinda do mesmo pó.

Mas se tiver paciência
Aquela que teve Jó
E um pouquinho de atenção
Escutar com o coração
E tiver benevolência

Escuta a voz de Deus
Nas tramas do que ele inventa
Ouve o trinado do pássaro
Vê as nuvens passeando
Descobre que existe algo
Que se ele não fizer
Isso vai ficar faltando.

Quando sabe o que fazer
O homem ainda não está pronto
Ele ainda falta ver
De que ponto do seu ser
Deus lhe manda seu recado
Pois Ele não fica calado
E nem nunca descansou.
Ele não fica enfadado
Ele não foi criado
Ele mesmo é quem criou.

Se é cantando, se é tecendo
Se é fazendo poesia
Ou mesmo, se te apetece
Trabalhando, dia a dia
E mesmo na noite escura
No ofício que a mão alcança
O esquecimento não dura
Perdura a sabedoria
Se um tiver pejo e constância.

Isso é coisa muito simples
E, ao mesmo tempo difícil
Pode um homem viver muito
Sem saber do seu ofício
Seu ofício essencial
Aquele serviço preciso
Que ele precisa fazer
E que caso não descubra
Sua vida foi em vão.

Sendo tão cheia de provas
De alegria e sofrimento
Desemboca num momento
Onde tu prestas contas

Mas somente de uma coisa
Darás esclarecimento
Ao Senhor da criação:
Ele vai te perguntar
Sem mentir nem enrolar
Uma só simples questão:
Quem tu és?

E o que fizeste da vida
Vagando em cima dos pés
Pelos teus, na tua lida
Passa bem na tua frente.

Todo o bem que tu fizeste
Tudo o que de graça deste
Foste pedra, foste flor
Foste bicho, foste gente

Dependendo da resposta
Receberás teu presente
Teu quinhão, e teu troféu
E não é um bilhetinho
Pra poder entrar no céu.

É só o discernimento
A plena compreensão
Dos mistérios desta vida
E a doce sensação

De que cada aflição
Gozo, dor e sofrimento
Teve um lugar preciso
Pra todo e qualquer momento

So então tu te dás conta
De que Deus estava dentro
Que tu és a a casa dele
Por isso é que lá no fundo
Perdido no meio do mundo
Trancado dentro da pele

Tu sabias certas coisas…
Tomavas caminho certo
Tomavas caminho errado
Mas sempre com o pé na estrada.
Vinda do que foste, nada
E conduzida a quem és

E a única condição
Pra tomar este caminho
Que leva a teu eu mais profundo
É usar teus próprios pés

Coragem de ser quem és
E de não culpar o mundo
Pelo teu próprio revés
Pelo teu próprio fracasso

Vai te abater o cansaço
Vai te abater a morte.
Mas se tu tiveres sorte
E Deus te quiser algum bem

Tu vais tirar dessa vida
Somente o que ela tem
E os caminhos que iam
A ti agora vêm
Serás um farol, guiando
Navios na tempestade

Espalhando tua luz
Para quem puder com a dor
De ver tudo com clareza
Por isso dizia o profeta
Que nunca se engana, ou se esquece,
E dizia com certeza:
“Quem conhece a si mesmo, a seu Deus sempre conhece”.

Alexandre Costa e Silva
17/08/2014 – 07:18

Eduardo Campos, a morte, o cérebro, Deus, e as teorias da conspiração.

Um acidente aéreo como o que matou no último dia 13 de agosto o carismático candidato à presidência da República Eduardo Campos, do PSB, sempre deixa histórias que se contam em voz baixa nos velórios. Gente que ia embarcar e por algum motivo não o fez; atrasou-se, teve problemas para embarcar, ou mesmo “não deveria estar lá”, mas estava, por algum motivo aparentemente banal.

Isso acontece porque a morte, a certeza universal, é também um dado absurdo, do ponto de vista do potencial morredor, no caso, eu e você. E o cérebro não evoluiu para lidar com o absurdo.

Pense bem: só o fato de ele ser um cérebro indica um desfecho evolutivo positivo. O cérebro se vê do ponto de vista dos vencedores dos “jogos vorazes” da evolução das espécies. Para ele as histórias têm que ter finais felizes.

Deste modo, céticos ateus explicam a predominância da crença em Deus sobre o ateísmo materialista, uma explicação mais simples — embora menos elegante — do universo: a de que estamos aqui por acaso, a existência de tudo é um acidente destinado a desembocar no nada.

Eu que sou cético sem ser ateu, penso que há um pouco desse “triunfalismo” cerebral na estrutura de todas as histórias que contamos. Realmente, a crença em uma ou várias divindades em todas as suas ricas variações, pode ser explicada de modo coerente pela teoria da evolução, sem lacunas. Para mim, talvez até seja esse o problema. Histórias sem lacunas não produzem outras histórias: são estanques, infecundas.

A teoria da evolução explica bem a crença em Deus, mas não explica Deus. Até o faz, mas como na famosa história sufi, descreve o dedo apontando para a lua, e não a lua mesma. Deus faz sua entrada triunfal sobre as nossas certezas precisamente no imponderável, no imprevisível — essa súbita circunstância que nos põe a contar histórias como uma nascente a lançar águas num rio caudaloso.

Quem imaginaria um cenário político como o que se configurará nos próximos dias, sem a figura carismática do candidato do PSB? Ainda que eu não fosse votar nele, sua morte me deixou perplexo. E como dizia Rumi, o poeta e mestre sufi do século XIII, “o homem de Deus está aturdido e perplexo”.

Ela inclusive veio em um mês onde eu já havia perdido duas pessoas significativas, então pensei: a bruxa está solta. Azrael, o anjo da morte, na tradição islâmica, veio à terra com uma lista longa de nomes, desta vez, com sua estrita obediência a Deus, para colher vidas de volta e devolver à terra o que tomou — contra a vontade desta ultima, diz uma outra história sufi — para fazer o homem.

Da mesma fonte de que brotam essas histórias maravilhosas, que nos aliviam o peito e nos inspiram a continuar caminhando na direção da morte, a perplexidade, brotam também teorias da conspiração. Elas são os mitos dos ateus. E — convenhamos, são bem menos elegantes.

Enquanto uma lei sancionada pouco tempo antes do acidente, decretando sigilo a respeito do conteúdo das caixas pretas de aviões em acidentes aéreos, a afirmação estúpida da presidente Dilma de que “em eleição se faz o diabo” a um acessor do próprio Campos, e a queda do jato em que viajava, são articuladas em um enredo repleto de conflito e sordidez, fico apenas com a perplexidade. Fico com ela, que é mais elegante e fecunda. “Aturdido e perplexo”.

Se houve ou não sabotagem, cedo ou tarde saberemos. Ou talvez nunca saibamos com certeza. A única coisa de que tenho certeza é de que não existe analista político que tenha sido capaz de prever este trágico resultado e seus desdobramentos políticos.

Isso me lembra uma frase, que se interpretada literalmente nos imobiliza, e que se lida com um coração ardente, nos inspira e consola: “quem sabe que até os fios de cabelos de sua cabeça estão contados, não mais planeja”.

“Não mais planeja” não significa literalmente ser o louco do tarô, com um cachorro mordendo-lhe a bunda e andando a êsmo rumo ao abismo da morte. Significa apenas perplexidade, aceitação da fatalidade e — puxando a brasa para minha sardinha islâmica — submissão a Deus, que, no Gênesis, empregou o singular para criar todas as coisas, e, por último ao criar o homem, usou o plural: “façamos o homem”.

Já ouvi diversos porquês desta mudança de singular para plural no sujeito do verbo: uma afirma que Ele empregou o plural majéstico, outra que se referiu a si e aos anjos. Inúmeras interpretações foram dadas para essa sutil diferença no enunciado, entre o “faça-se a luz” e o “façamos o homem”. A mais fecunda, na minha opinião é a dos judeus hassidicos, que afirmam que Ele usou o plural porque estava, ao mesmo tempo, criando o ser humano e convidando-o a criar sempre a si mesmo, junto consigo.

Nem sempre Sua contribuição na criação contínua do homem é atirar flores em nosso caminho. Às vezes, atira aviões sobre as nossas casas. Que Ele nos proteja a todos, e console a família de Eduardo Campos nesta hora tão difícil.

Quanto a mim, e às teorias da conspiração, bem, algumas delas podem até se revelar factíveis no fim das contas, mas eu prefiro o mito clássico: com ou sem sabotagem, Deus, que tudo sabe e vê, paradoxalmente onipotente e onipresente, decidiu que, no dia 13 de agosto de 2014, exatamente nove anos após a morte de seu avô e mentor político Miguel Arraes, Eduardo Campos encerraria seus dias sobre a terra. Vivamos com isso, ainda que por não ter jeito.

Mas eu, sendo o Aécio Neves, ou a Marina Silva, mandava inspecionar o jato sempre que tivesse de voar. Vai que alguém resolve “fazer o diabo”… Não necessariamente precisa ser a autora da frase infeliz. Até acho que, se tal fosse o caso, ela seria muito mais estúpida do que aparenta.

Aqui a perplexidade dá lugar a um ditado oriundo das tradições do profeta Muhammad: “confia em Deus, mas amarra teu camelo”.