Eu e Deus — a minha fé

A influência de lugares e objetos sagrados está em direta proporção com a reverência com que uma pessoa se relaciona com eles. Um livro, um tasbi, uma tekkia, e até mesmo a sagrada Caaba e o Nobre Alcorão — tudo isso só influencia e enriquece a quem se põe num correto relacionamento com estas coisas.

A busca pelo sagrado está no âmago da humanidade. Ateus vão demonstrar, secos e diretos, com sua cortante navalha de Occam, que somos nós quem criamos o divino, para lidar com o fato básico e incontestável da finitude.

O quão desprovido de maravilha é um cosmos aleatoriamente nascido de um caos inexplicável, que avança em direção à implacável e sempre vencedora entropia que nos devora com sua boca escancarada, o tempo! Seu apetite é insaciável! Segundo os ateus, a vida seria insuportável sem a capacidade de imaginar deuses, sem a deificação de fatos naturais, sem a antropormofização do eterno como uma mentira heróica, uma tentativa inútil e fadada ao fracasso de enganar a eternidade.

Quanto a está última, nunca ninguém provou sua existência. Até onde sabemos, tudo começou numa explosão insólita, e numa contínua expansão que representa a combustão do nada que explodiu (ou do tudo super-condensado, que não passa da mesma coisa). Até onde sabemos, a própria eternidade é uma mentira bem contada, repetida ad nauseum até que fosse dada como real, ainda que não passe de uma abstração desprovida de alicerce empírico.

Uma pessoa que concebe a realidade assim, não possui desenvolvidas as faculdades que lhe permitiriam conectar-se a um objeto sagrado, impregnado de memória humana, saturado de ações heróicas, irradiando a generosidade, a misericórdia, a paciência e a humildade do homem ou dos homens que a usaram para curvarem-se ao criador dos mundos.

Sim, porque através dos sentidos ordinários se captam os fatos, o empíreo, o palpável, aquilo que tem a concretude de uma pedra em queda livre sobre a nossa cabeça. Mas além destes sentidos, há outros. Há uma inquietude, aquela que move os santos e os mártires, e os heróis. Aquela que vai além de si mesma e da inexorável evolução da vida, e seu legado de auto-preservação e auto-interesse.

Essa inquietude, essa sensação de que a verdade está sempre além dos fatos, que não se confunde com eles, que não pode ser transmitida em palavras — como dizem os sufis, “quem prova, sabe”. Ela é a abertura que algumas pessoas desenvolvem em direção ao sagrado. É essa falta, essa fome interior, essa sensação de que o mundo sensível é que é um sonho — platônica, plotínica, se quiser, sempre animando os grandes feitos humanos. Ela vale a pena.

Ela permite o uso de instrumentos, através dos quais uma pessoa se relaciona com algo que a humanidade chama de Deus, no esforço libertário de romper os grilhões da deificação da natureza, o paganismo, ou o ateísmo. Estes instrumentos nos ligam a uma longa cadeia de memórias. Eles contam a história imemorial da humanidade, através dos mitos.

É uma bem contada mentira que um mito seja uma mentira. Um mito é conhecimento condensado, “experiência desidratada”, no dizer de Idries Shah. Uma história mítica de ensinamento, ou um texto religioso é um documento tão técnico quanto um paper acadêmico, com a vantagem de ser alegórico, polissêmico, transistórico, e principalmente fecundo.

Um ano a ciência condena o chocolate, no outro, ele é bom para a depressão. Carne vermelha já foi o vilão como resultado de diversas pesquisas, e outras apontam o seu valor inestimável em uma dieta saudável. Não estou condenando isso. Esta é a ciência sendo ciência. Eterna negadora de si mesma. A ciência é o melhor uso que se pode fazer da dúvida.

O pior é a esterilidade do ateísmo. Ele não atinge a Deus, nem aos verdadeiros homens de fé. Ele não é incompatível com a moralidade, como o querem religiosos literalistas (termo que considero mais exato que fundamentalismo, como explico adiante). Por este motivo, tenho amigos ateus, converso com eles, e silencio, quando fazem troça de minha profunda conexão com o sufismo e a tradição islâmica. Parafraseando Jesus, eles não sabem o que fazem.

Não tenho orgulho de minha relação com Deus, tenho uma sorte tremenda de haver encontrado em meu caminho pessoas que acenderam em meu coração a chama eterna da busca por esse amor infinito, e me ensinaram que não se explica o inexplicável: simplesmente se guarda no coração os tesouros da memória, a experiência do sagrado, e sua influência em todas as escolhas da minha vida.

Por este motivo me considero um fundamentalista. Adiro ao fundamento básico de todas as religiões, em todos os tempos, e este fundamento é o amor. O amor de Deus pela humanidade, correspondido ou não. O amor de Deus não requer sequer uma conversão religiosa. Ele está lá quando você vence, e também quando você fracassa miseravelmente. Ele sustenta o próprio tecido do Universo.

Por este motivo, os fatos são usáveis, mas a verdade, no sentido absoluto, é inapreensível. Ela jaz no âmago da jornada humana sobre a terra, e continuará a produzir “big bangs” de ébria criatividade dentre os amantes que encontram Deus na imanência e o percebem nas sutilezas da transcendência.

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