Neoconservadores e fundamentalismo

Ontem, seguindo uma dica do economista Pedro Henrique Dias, assisti ao documentário “Agenda”, no YouTube. Fiquei tentado a escrever algo a respeito.

Durante os últimos meses, tem acontecido um “Breaking Right” em meu conhecimento e posicionamento político. Tenho me alinhado com diversas posições consideradas “direita” ou “nova direita” pelo mainstream coletivista. Embora não me identifique com figuras como Bolsonaro, ou Paulo Maluf, isso se dá geralmente porque vejo nestes representantes da “direita decadente” características semelhantes às da “esquerda progressista”, apesar dessa segunda ser melhor em marketing. Essas características são: 1) Um modelo estatista da economia e da vida civil e 2) Um modelo militarista e belicista de controle social. As duas coisas, como é óbvio, são intimamente relacionadas.

Muito embora os “progressistas” frequentemente se pintem como pacifistas, a doutrina que os embasa (O Marxismo refinado na Itália por Antônio Gramci) Nunca deu em outra coisa senão em banhos de sangue sistemáticos, no último século, que — a propósito — foi o século em que mais se matou na história da humanidade; provavelmente mais do que em todo o resto da nossa história.

Há, entre os “progressistas”, também, um ranço mal disfarçado, uma ojeriza da riqueza, um pressuposto de que toda a riqueza foi construída em cima de atos criminosos — de fato, ouvi uma amiga proferir essa sentença estúpida um dia desses — que é francamente hostil às liberdades econômicas. E sem liberdade econômica, não existe produção de riqueza, apenas distribuição. Se alguém distribui o que não é produzido, essa pessoa fica sem nada. Óbvio para qualquer um, não? Mas vai parecer simplista ao “progressista” típico.

Até aí, estou alinhado com o documentário, caso você tenha, como eu tive, a paciência de assisti-lo até o fim. Mas é aí que as semelhanças terminam.

Ontem tive uma discussão com amigos no twitter sobre a guinada conservadora do favorito libertário americano Rand Paul. É que a agenda desses caras me mete tanto medo quanto uma suposta “agenda bolchevique” — que reputo como simples saudosismo da guerra fria — ou mesmo uma “agenda islâmica radical”, como a que destruiu o Afeganistão, começando ao longo dos anos setenta, e culminando com a invasão pelos EUA depois do atentado às torres gêmeas.

Os discursos que geraram as duas guerras mundiais tinham — a despeito de enormes diferenças entre si — semelhanças incontestáveis. A mais assustadora delas é o que define praticamente todas as religiões: a dinâmica do “nós” contra “eles”. A humanidade não é vista como uma (tal como os fundadores de todas as grandes religiões a viam, inclusive Muhammad), mas como dividida em duas: cristãos versus pagãos (ou muçulmanos), muçulmanos versus o resto do planeta, judeus versus muçulmanos, ou seja: nós contra eles. Sempre subestimamos o poder destrutivo dessa dinâmica.

Entendo a espécie humana como um contínuo, diferente entre si, mas com identidade suficiente para que possamos alimentar o ideal de um mundo sem fronteiras. Utópico? talvez. Mas não pretendo matar milhões de pessoas para que essa utopia venha a acontecer. Isso invalidaria minha utopia, porque está em contraste com uma parte fundamental dela: uma adesão radical ao princípio da não-agressão.

Se examino a idéia da própria existência do estado ser uma agressão, ainda que como hipótese de trabalho (o trabalho de pensar filosofia política), não posso corroborar com discursos belicistas, ainda que venham embalados em promessas de paz.

O documentário tem como premissa uma completa inversão da história recente. Para os “fundamentalistas” autores do vídeo (as aspas indicam que não acredito que estão de acordo aos fundamentos do cristianismo), o marxismo ganhou a guerra fria, e não o contrário. Apesar de louvarem Reagan e seus esforços para destruir aquela ideologia assassina, acreditam que os comunistas se metamorfosearam em gays e feministas, e estão erosionando a sociedade americana através do ataque aos valores cristãos.

Se você é gay, não tem opinião formada sobre o livre-mercado, por exemplo, e está assistindo isso, vai jogar o bebê fora junto com a água do banho. Se você acredita que as mulheres devem poder escolher qualquer papel que queiram na sociedade, como qualquer ser humano, você se coloca como opositor de qualquer coisa que for dita no documentário, mesmo que esteja apoiada em fatos, porque uma maçã podre tem o efeito deletério de estragar o cesto.

Assim, o documentário é um gigantesco tiro no pé. A sociedade muda, para melhor e para pior. A mudança em si não é boa nem é ruim. É possível pautar-se numa moral da construtividade, apoiado na história, na lógica e — porque não? na própria religião. Ser ateu ou crer em Deus pode não ser critério para tomar a liberdade como o valor mais sagrado. Jesus Cristo fez isso. Muhammad também, à sua maneira. O que não se pode fazer é querer impor crenças e preconceitos a toda a humanidade.

Veja bem, não estou defendendo um “homem perfeito” sem preconceitos, politicamente correto. Essa é precisamente a idéia que estou a combater. A perfeição não é — na minha cosmovisão — um atributo humano. Somos perfectíveis, sem nunca chegar onde queremos. Mas como minha idéia de perfeição é provavelmente diferente da sua, não temos como conviver se eu defendo que você siga os meus valores. É uma receita perfeita para a guerra constante. E é exatamente isso que moveu toda e qualquer carnificina, em todo e qualquer momento da história.

O comércio sempre foi a atividade que mais produziu períodos iluminados na história. Comerciantes sufis muçulmanos levaram o conhecimento dos antigos para as trevas do cristianismo medieval europeu. O Comércio nos põe diante da diferença com a tarefa vitalícia de tirar dela o melhor proveito, com mútuo benefício. A economia de mercado não é perfeita — mas ainda é o melhor conjunto de estratégias de convivência entre pessoas e grupos que cultivam valores diferentes. É sempre melhor ter um cliente do que um inimigo.

Rand Paul anda falando sobre um suposto plano “de radicais islâmicos” para matar cristãos em todos os países. Está usando a idéia da humanidade una, para sabotá-la. Como é pré-candidato à sucessão de Obama em 2016, tem que contentar militares e pastores pentecostais que acham que o mundo era melhor em 1950, antes da explosão criativa dos 60 e 70, anos que acreditam ter sido seqüestrados por uma suposta “conspiração bolchevique” que pregava o amor livre, era contra a guerra do Vietnam, e advogava a equiparação civil de casais homossexuais. Pura estupidez. Se esses anos nos deram Dilma Roussef, também nos deram Steven Paul Jobs — que acreditava no poder do LSD para abrir “As Portas da Percepção” — e que não era nem um pouco comunista.

O Vídeo é um tiro no pé, mas o que esperar do conservadorismo, uma “ideologia” que foi montada precisamente sobre a idéia do “nós contra eles”? Estranho é ver gente que se diz libertária identificando-se com “gênios” como Olavo de Carvalho. É precisamente este tipo de paranóia que — quer ocorra à direita ou à esquerda — produz equívocos, e afasta gente inteligente, que fica pensando que defender o livre intercâmbio de idéias, serviços e outros valores (uma forma mais correta de descrever o mal-afamado “livre mercado”) é coisa de paranóicos de direita.

Um poema político

Comandantes erráticos

Passam abúlicos
Ou vão sonâmbulos
Hirtos, mecânicos

Votar nos mágicos
Senhores do alheio
Comandantes erráticos

Muito românticos
Mas sempre estúpidos
E pouco práticos

Acham que o único
Modelo de gente
É o que lhes parece óbvio

Incorrigíveis
Senhores do alheio
Comandantes erráticos

São carismáticos
Prometem o Éden
E fazem prosélitos

Querem sufrágios
De fácil controle
E resultado automático

Sempre fanáticos
Com tantas certezas
Quanto gestos enfáticos

Poderes mágicos
O sonho é bonito
E os resultados são trágicos

Vejo o povo esquálido
Vejo o povo inválido
Vejo o povo impávido

Correndo pra rua
Pra pedir mais estado

Vejo o povo esquálido
Vejo o povo inválido
Vejo o povo impávido

Beijando as mãos
De Comandantes Erráticos

Baseado em música de João Ricardo

Alexandre Costa e Silva

No crepúsculo, como ser partidário da noite, se busco luzes artificiais, para continuar vendo as coisas distintamente, em sua sagrada individualidade, paradoxalmente forjada do íntimo acordo das células, e construo para mim abrigo contra as feras que surgem do breu desconhecido e ameaçador?

Alexandre Costa (eu), sobre coletivismo (a noite) versus individualismo (o dia). Estava inspirado. 😉